Quando o Ocidente descobriu a literatura russa em meados do século 19, não foram Dostoiévski e Tolstói, os dois grandes mestres hoje reverenciados, os primeiros a se tornar conhecidos. Ivan Turguêniev (1818-83) apareceu antes.

Sem empreender o profundo mergulho psicológico de um, nem construir os grandes painéis do outro, notabilizou-se por tramas aparentemente triviais que, escritas com sutileza, alcançavam poderoso efeito. Como nos contos reunidos em “Memórias de um caçador”, ou nos romances “Rúdin” e “Pais e Filhos”, este sua obra-prima.

Ivan Turguêniev (Photograph: © Bettmann/Corbis)

Ivan Turguêniev (Photograph: © Bettmann/Corbis)

Na formidável onda de novas traduções diretas do russo, é um dos autores que tem ressurgido para o leitor brasileiro. Rubens Figueiredo já verteu “Pais e Filhos” para a Cosac Naify. O que chegou há pouco às prateleiras daqui é “Rúdin”, numa tradução de Fátima Bianchi, pela Coleção Leste, da Editora 34, que também anuncia “Memórias de um caçador”, trazido para a língua portuguesa por Irineu Franco Perpétuo, para breve, setembro.

Com “Rúdin”, seu primeiro romance, introduzia um novo tipo de herói na literatura do seu país: o aristocrata culto de grandes ideais embora sem meios para colocá-los em prática numa sociedade autocrática extremamente conservadora. Assim é o personagem que dá título ao livro, um sujeito de cabeleira tão farta quanto intensa é sua habilidade para convencer plateias. Com sua retórica libertária, inspirada pela literatura romântica e a filosofia idealista alemã, causa furor ao chegar à casa da latifundiária Dária Mikháilovna, que vive cercada de bajuladores.

De pequena comédia de costumes, a trama se transforma num drama psicológico em que prevalece o debate de ideias. Até se constituir o impasse amoroso entre ele e Natália Aleksêievna, uma daquelas que os críticos denominariam de “as jovens de Turguêniev”, suas personagens nobres apaixonadas.

Para montar seus tipos, Turguêniev dizia que precisava de alguém da vida real que servisse de matriz. Seu Rúdin, retrato do ativista social da época, é declaradamente inspirado em Bakúnin, nome central do anarquismo. A bem da verdade, as semelhanças entre Rúdin e Bakúnin foram relativamente atenuadas quando o texto inicial, publicado numa revista russa, ganhou o formato de livro, em 1856. Quatro anos mais tarde, ganharia um capítulo adicional no fim, quando saíram suas obras reunidas em 1860. No novo entrecho, Rúdin como que se redime, num gesto heróico apesar de inútil, aproximando-se mais da figura de Dom Quixote que de Hamlet, comparação que incomodava o autor – aqui, vale registrar que na recente edição de “Pais e Filhos” pela Cosac Naify há como apêndice um ensaio de Turgêniev dedicados aos dois personagens, de Cervantes e Shakespeare.

Não apenas Bakúnin, Rúdin representa os jovens idealistas vindos da camada culta, de grandes proprietários de terra. Ambiente onde nasceu o autor, em 1818. Como notaria Gorki, “Rúdin é Bakunin (…) e, em parte, o próprio Turguêniev”. De família abastada, perdeu o pai ainda cedo e manteve com sua mãe um relacionamento difícil, estudou em Moscou e São Petersburgo, então capital. Em Berlim, se forma em letras clássicas, filosofia e história.

De volta a seu país, ocupa cargo público até se dedicar inteiramente à literatura. Começa a publicar poemas e crítica literária, seguem-se os contos e novelas, enfim os romances e peças de teatro. Integra, assim, a geração de 1840, de jovens russos inconformados com a injustiça social, com o sistema de servidão, o regime czarista e o atraso do país. Nos últimos anos, viveu na Inglaterra e na França, quando se aproxima de autores como Gustave Flaubert e Guy de Maupassant. Nos arredores de Paris, morre em 1883. A seu pedido, é enterrado de volta em sua pátria.

As temporadas no exterior, também seu estilo e a circulação de sua obra o levariam a ser reconhecido como o mais ocidentalizado entre os autores russos da época. A fama internacional começou com “Memórias de um caçador”, que, traduzido em vários países, levantou grande debate sobre o servilismo. “Rúdin” alargaria seu horizonte. O posterior “Pais e Filhos” foi não só um dos mais importantes romances russos, mas um dos mais importantes romances de todo o século 19, dizia Vladmir Nabokov.

No Ocidente, a lista de apreciadores de Turguêniev inclui muitos dos seus pares na literatura. Entre os primeiros, Henry James e Joseph Conrad–esses o consideravam mesmo superior a Dostoiévski e Tolstói -, e, dos mais recentes, há Julian Barnes, que o tornou personagem de uma das histórias reunidas em “Um toque de limão”, e Tom Stoppard, de “Salvamento”. Em sua honra, Alice Munro põe dois personagens a falar de Turguêniev num dos contos de “Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento”.

Para o leitor que procura mais Turguêniev, cabe lembrar das traduções da pioneira Tatiana Belinky, autora recentemente falecida: em catálogo, tem-se “Primeiro Amor”, pela L&PM, e “O Cão Fantasma”, infanto-juvenil também pela Editora 34.

 

Fonte: Gazeta Russa