por Luis Nassif

Tenho insistido que o novo já nasceu, mas não consegue ser apresentado ao Brasil.

De fato, há um turbilhão de fatos novos, ideias novos, mudanças socioeconômicas, regionais, uma ânsia de discutir o Brasil que se espalha pelas redes sociais.

O novo não está exclusivamente nos jovens. Há velhos jovens e jovens velhos.

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Rosa Luxemburgo  | Imagem: Rolando Astarita


A atualidade de uma marxista rebelde
por Antonio Martins

Há cinco anos, surgiu e cresce, em paralelo a uma crise do capitalismo duradoura e de final imprevisível, um movimento intelectual surpreendente: a reabilitação das ideias de Karl Marx. O filósofo alemão, que muitos desprezaram após a queda do Muro de Berlim, está de volta. Seus livros são republicados em todo o mundo, com tiragens e repercussão expressivas. Não raro, sua importância e contemporaneidade são reconhecidas até mesmo por publicações conservadoras e por consultores ilustres das grandes finanças globais.

No Brasil, este resgate pode avançar um pouco mais a partir de hoje (19/3), de maneira aparentemente paradoxal. Um curso, em São Paulo, examinará a obra de uma pensadora e militante que se apaixonou pelo marxismo muito jovem, viveu intensamente sob sua influência e contribuiu para enriquecê-lo – mas foi esquecida, no século 20, tanto pelo socialismo soviético quanto pelas correntes hegemônicas entre a esquerda. Estamos falando de Rosa Luxemburgo.


Neste fim de semana (23 – 24), em Parati, o Seminário Pensa Brasil – com a participação do sociológo italiano Domenico de Masi – juntou um grupo de sonhadores que trouxeram elementos relevantes sobre o novo e o velho novo. Especialmente na apresentação do economista Ladislau Dowbor.

Ladislau é especializado em economia alternativa, em novas formas de organização social e econômica. E discípulo e colega do notável Ignacy Sachs, um dos faróis do pensamento humanista do século 20.

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Joachim Kollreutter, maestro, músico, humanista, costumava descrever o mundo, os tempos, com um espiral: volta-se sempre para a posição anterior, mas um patamar acima.

Para muitos pensadores, a Segunda Guerra significou o fim do cientificismo, da ilusão de que o conhecimento humano e as forças de mercado levariam a um mundo melhor.

Descrentes do regime comunista, como o polonês Sachs – que veio com a família para o Brasil, tentou voltar à Polônia, até ver seu país sufocado pela ditadura soviética -, refugiados do nazismo, como Albert Hirschman e outros, ajudaram a montar o Banco Mundial e a plantar no multilateralismo a semente da equidade social, do apoio ao desenvolvimento e ao combate à miséria.

O grande ideólogo do grupo era um brasileiro, que acabou meio esquecido no tempo: Josué de Castro, autor de obras essenciais sobre a fome.

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Todos eles criaram utopias que não se tornaram hegemônicas, mas que se constituíram em ferramentas de luta para humanizar o modelo econômico.

Desde os anos 90, Sachs tornou-se o principal ideólogo de uma espécie de volta às origens, ao campo, vislumbrando nas novas ferramentas tecnológicos e econômicas modelos de sustentabilidade que permitirão a constituição de comunidades agrícolas autossuficientes e, principalmente, felizes.

Por sua vez, Dowbor é um entusiasta das redes sociais, do trabalho colaborativo vendo na Internet – assim como o sociólogo espanhol Manuel Castels – o ambiente ideal para a construção do trabalho em rede, do exercício de novas formas de organização social.

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Dowbor enaltece o Banco de Palmas – banco comunitário que criou uma moeda para circulação interna. Há experiências culturais extraordinárias no Fora do Eixo – sistema de apoio aos artistas que também criou sua própria moeda, que pode ser trocada por serviço dos membros da comunidade.

O discurso de Dowbor entusiasma, ao mostrar uma nova sociedade com os bens culturais e tecnológicos sendo compartilhados, com as pessoas tendo tempo para ter felicidade, com a riqueza sendo dividida.

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É um sonho pouquíssimo viável. Com a força da Internet certamente cativará mais pessoas que o movimento hippie, ou que as comunidades rurais dos anos 40. Jamais se imporá como um sistema.

Mas são esses sonhos, essas utopias dos sonhadores que ajudarão a economia a ser um pouco mais humana e solidária, nesse enorme esforço para reconstruir os valores, depois da crise de 2008.

 

 

Fonte: Carta Capital