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O dia em que os EUA pararam: há 50 anos, morte de JFK silenciou a bolsa americana

ed8443c8-b350-4644-b773-3be9e0b6e9d9John F. Kennedy | JFK Library: Public Domain Image

Depois de cinquenta anos, o assassinato do então presidente dos Estados Unidos, John Fitzgerald Kennedy, ainda é cercada por diversos mistérios. Há até mesmo quem duvide que seja Lee Oswald o autor dos disparos que ceifaram a vida do presidente em 22 de novembro de 1963, também uma sexta-feira.

E a morte de Kennedy não afetou somente a política, mas também atingiu os mercados financeiros. Logo após a notícia de que Oswald havia matado Kennedy, o mercado de ações ficou fechado, o que também ocorreu durante o seu funeral na segunda-feira. Contudo, antes de fechar, as bolsas tiveram um dia bastante agitado.

O dia 22 de novembro

O dia 22 de novembro ficará marcado pela tensão nos mercados, conforme destacam relatos de diversos profissionais de mercado que foram ouvidos pela Bloomberg. Na época, Arthur Cashin Jr, funcionário da bolsa de Nova York de 21 anos, recebeu a ligação de um corretor perguntando se sabia de alguma notícia, após ouvir boatos de que algo teria acontecido algo com o presidente dos EUA. Cashin reiterou que não.

Porém, a morte do presidente foi um fato que abalou os mercados, com as ações entrando numa súbita onda de vendas em meio a maior aversão ao risco no país. Porém, o efeito não foi sentido por muito tempo: as bolsas foram fechadas duas horas após a divulgação da notícia de que Kennedy fora baleado.

A Nyse (New York Stock Exchange) registrou um de seus volumes de negociações mais forte da história, com os preços de ativos registrando piores quedas desde o mergulho de 28 de maio de 1962, quando ocorreu o chamado “Flash Crash” de Wall Street. O Federal Reserve agiu rapidamente para evitar o pânico quando os mercados reabrissem e emitiu uma declaração extraordinária de modo a evitar maiores temores no mercado financeiro e buscava-se evitar quaisquer especulações contra o dólar nos mercados cambiais.

As operações normais em fábricas, escritórios e lojas em todo o país foram interrompidas com a notícia da morte do presidente passou por corredores de boca em boca e por todos os escritórios. Várias grandes empresas, como a Standard Oil Company, de New Jersey, fechou seus escritórios em todo o país e enviou os funcionários para a casa.

A maioria das empresas não estavam dispostas a discutir o impacto sobre a economia. Algumas, no entanto , temiam que a confiança seria afetada e que um mercado de ações que andava de lado e que estava com pouca tendência a subir em meio às notícias de negócios favoráveis, poderiam entrar em uma queda ainda maior.

Antes da morte de Kennedy, o mercado de ações já estava inquietante para alguns observadores. Os preços deixaram de subir consideravelmente nas últimas semanas, apesar de uma onda de desenvolvimentos de negócios favoráveis, incluindo dividendos superiores. Em vez disso, o mercado reagiu negativamente a um imbróglio sobre o esquema Ponzi no mercado de óleo de soja.

Com isso, o mercado ficou fechado pela primeira vez desde 4 de agosto de 1933. O presidente da bolsa norte-americana, Keith Fuston, ressaltou que houve uma enxurrada de ordens não executadas até que as negociações foram interrompidas. Em meia hora, o volume foi extremamente forte para uma sessão de cinco horas e meia, bem acima do que todo o pregão da sessão anterior.

Porém, mercados se recuperaram rapidamente…

Depois da morte de Kennedy, o mercado entrou em queda livre? Por incrível que pareça, não, de acordo com relatos de Eddy Efelbein, editor do site Crossing Wall Street. Na terça-feira, 26 de novembro, o Dow Jones ganhou 32 pontos, com ganhos de 4,5%.

Depois, veio dia de Ação de Graças e, impressionantemente, o mercado subiu ainda mais após o feriado, com ganhos de 5,5% na semana após o assassinato de um presidente popular.

Porém, destacam, é interessante notar o quão baixo era o volume diário na comparação com os mercados norte-americanos atuais. Naquela época, eram negociadas cerca de 5 milhões de ações e atualmente, o intervalo é entre 1,3 bilhão e 1,5 bilhão de ativos.

 

Fonte: InfoMoney

O que estão dizendo sobre a capa da Rolling Stone com terrorista de Boston

Algumas decisões editoriais precisam de muita coragem para serem tomadas. Passados pouco mais de três meses dos atentados de Boston, que mataram três pessoas e deixaram mais de 200 feridos, a revista Rolling Stone estampou em sua capa a foto de um dos terroristas acusados pelo crime. A resposta imediata do público foi, na esmagadora parte dos casos, de revolta. E não só por parte dos leitores. A foto acima é da primeira página do jornal Boston Herald, que diz “a decisão foi burra como uma pedra”.

PRIMEIRA PÁGINA DO JORNAL BOSTON HERALD DESTA QUINTA-FEIRA CRITICA A REVISTA ROLLING STONE POR TER COLOCADO O DZHOKHAR TSARNAEV NA CAPA DE SUA ÚLTIMA EDIÇÃO (FOTO: REPRODUÇÃO INTERNET/FACEBOOK/BOSTON HERALD)

A principal chamada da Rolling Stone é sobre o jovem Dzhokhar Tsarnaev, de 19 anos, acusado de ajudar seu irmão, Tamerlan Tsarnaev, a colocar duas bombas na linha de chegada da Maratona de Boston, no dia 15 de abril. A matéria mostra depoimentos de amigos e vizinhos do rapaz, que falam sobre o quanto ele havia mudado nos meses anteriores ao atentado.

A reportagem, em si, não toma o partido de Tsarnaev e não justifica seus atos. A intenção era contar a história de um jovem que, até alguns meses atrás, era considerado “doce” e “amigável” por seus conhecidos. Mas faz sentido que muita gente tenha ficado revoltada com a capa da revista. Pessoas que não faziam nada além de participar da corrida ou assistí-la tiveram membros amputados, passaram por cirurgias e atravessaram dias e dias no hospital para se recuperar dos estragos causados pelas explosões.

CAPA DA REVISTA ROLLING STONES, COM DZHOKHAR TSARNAEV, UM DOS AUTORES DO ATENTADO NA MARATONA DE BOSTON (FOTO: DIVULGAÇÃO/ROLLING STONES)

O perfil da Rolling Stone no Facebook ficou repleto de críticas nos últimos dois dias: “Jeff Bauman, que perdeu as duas pernas [nesses atentados], deveria estar na capa”, diz um dos comentários. Outro, opina que é “doentio que ninguém se importe com a morte de pessoas, pessoas reais com vidas e famílias”.

Alguns anunciantes da revista também se posicionaram. Contatada pela Business Insider, a Coca-Cola, que tem uma página inteira na publicação, afirmou que “não tinha conhecimento prévio de qual seria o conteúdo da revista quando fechou o contrato de mídia com a publicação”.

Astroglide, uma marca de lubrificante íntimo, disse que gostaria de ter sido informada que Dzhokhar Tsarnaev estaria na capa para, então, decidir se teria um anúncio na revista ou não. “Nós teríamos tirado [a propaganda] se soubéssemos”, disse um porta-voz. A empresa não tem intenção de continuar a anunciar na publicação no próximo ano.

Adam & Eve, uma loja de produtos para adultos, disse que continuaria com o anúncio mesmo sabendo quem estaria na capa da revista. “Acima de tudo, Adam & Eve acredita na liberdade de expressão. A capa certamente chamou a atenção da mídia, mas tendo visto apenas alguns trechos do artigo, não achamos justo julgar. Na nossa experiência, a Rolling Stone sempre escreveu histórias provocativas. Eu acho que é lamentável que algumas lojas estejam boicotando a revista”.

A polêmica foi tanta que a publicação abriu a reportagem para quem quiser ler e publicou junto um recado dos editores, que diz:

“Nossos corações estão com as vítimas das explosões da Maratona de Boston e os nossos pensamentos estão com eles e suas famílias. A reportagem de capa que estamos publicando esta semana está dentro das tradições do jornalismo e do compromisso de longa data da Rolling Stone com a cobertura séria e reflexiva das questões políticas e culturais mais importantes do nosso dia a dia. O fato de que Dzhokhar Tsarnaev é jovem, na mesma faixa etária de muitos de nossos leitores, torna ainda mais importante para nós examinar essa complexa questão e conseguir compreender como uma tragédia como essa acontece.”

 

Fonte: Época Negócios

 

Brazil demands explanation from US over NSA spying

Brazil has called on Washington to explain why US intelligence agencies have been monitoring millions of emails and phone calls from its citizens, as the international fallout from the US whistleblower Edward Snowden’s revelations spread to Latin America.

Brazil's president, Dilma Rousseff, who called in cabinet ministers to discuss the issue of NSA spying on Brazilians. (Photograph: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr)

Brazil’s president, Dilma Rousseff, who called in cabinet ministers to discuss the issue of NSA spying on Brazilians. (Photograph: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr)

The foreign minister, Antonio Patriota, expressed “deep concern” about a report that appeared in O Globo newspaper at the weekend, which detailed how the US National Security Agency (NSA) had conducted extensive spying activities in Brazil.

Based on documents provided by Snowden, the O Globo story showed how the US had been carrying out covert surveillance on ostensibly friendly nations. Similar reports in Europe and Hong Kong have sparked indignation in recent weeks.

After the Brazilian president, Dilma Rousseff, called in cabinet ministers to discuss the issue, the government issued a statement of concern.

“The Brazilian government has asked for clarifications through the US embassy in Brasília and the Brazilian embassy in Washington,” Patriota said. He said his country would ask the United Nations to work on an international regulation “to impede abuses and protect the privacy” of internet users.

The federal police and the Brazilian Telecommunications Agency have been instructed to investigate how the data is collected by the US spy agency.

The communications minister, Paulo Bernardo, said it was likely to have been done by satellite or by tapping undersea cables, but he also wanted to find out whether domestic international providers were involved.

“If that has happened, these companies broke Brazilian law and acted against our constitution, which safeguards the right to privacy,” Bernardo said.

The O Globo story, which was written with the Guardian journalist Glenn Greenwald, sparked consternation in Brazil on Saturday when it pointed to surveillance maps among Snowden’s documents that showed the country was among the most heavily data-mined nations, alongside China, Russia and Pakistan.

It showed the acquisition of data was done through the NSA’s Fairview programme, which is a collaboration with an unnamed US telecommunications company to gain access to data flowing through its network.

Referring to the story in his blog, Greenwald noted that Brazil was merely an example of a global practice.

“There are many more populations of non-adversarial countries which have been subjected to the same type of mass surveillance net by the NSA: indeed, the list of those which haven’t been are shorter than those which have,” he wrote.

He said Brazil was just an example of indiscriminate worldwide surveillance by the US.

Latin America is already bristling after the forced diversion last week of the Bolivian president Evo Morales’s plane, which was denied access to Spanish, French, Italian and Portuguese airspace en route back from Moscow because of suspicions that Snowden was on board. It is assumed that the US was behind this policing action.

Snowden has not been seen or heard of in public since he landed at Moscow airport two weeks ago on his way from Hong Kong to Ecuador. However, WikiLeaks has issued statements on his behalf in which he revealed he had requested asylum in 26 countries.

Most have turned him down, but Venezuela, Nicaragua and Bolivia have offered refuge. Ecuador said it had yet to make a decision.

Cuba’s president, Raúl Castro, added his support for Snowden at the weekend. “We support the sovereign right of Venezuela and all states in the region to grant asylum to those persecuted for their ideals or their struggles for democratic rights,” he told Cuba’s national assembly. However, Cuba has yet to formally offer sanctuary to the former NSA contractor.

The Russian government has yet to comment on the asylum offers, but a senior parliamentarian indicated that patience may be running thin with Snowden, who has been living in the transit area of Moscow airport.

Alexei Pushkov, who chairs the Duma’s foreign affairs committee, stated that a move to Venezuela would be the best solution for the fugitive.

“Venezuela is waiting for an answer from Snowden. This, perhaps, is his last chance to receive political asylum,” Pushkov said in a tweet on Sunday.

Although Snowden now has options in Latin America, his ability to travel there from Moscow is uncertain given the difficulty of crossing airspace in Europe and the possibility of any plane he is on being intercepted if it passes through US airspace.

Senior US politicians have underscored that any nation helping Snowden should suffer the consequences.

The US House intelligence committee chairman, Mike Rogers, said on Sunday that the US should look at trade agreements with the nations that are offering asylum “to send a very clear message that we won’t put up with this kind of behaviour”.

As the latest report from Brazil shows, documents provided by Snowden have contained embarrassing revelations about US spying operations on friendly nations as well as its own people.

The chairman of the joint chiefs of staff, General Martin Dempsey, said in a CNN interview on Sunday that US relations with some allies had been damaged and the revelations had affected “the importance of trust”.

Dempsey said the US would “work our way back. But it has set us back temporarily.”

 

Source: The Guardian

 

NSA whistle-blower Edward Snowden FIRED from $122,000 per-year job with defense contractor Booz Hamilton

Runaway whistleblower Edward Snowden has been fired from defense contractor Booz Hamilton, where it’s been revealed he had worked just three months and earned $122,000 a year — significantly less than the high-school dropout previously claimed.

Snowden’s termination comes one week after the 29-year-old allegedly leaked top-secret information from the National Security Agency containing phone and Internet data usage after protectively fleeing the States.

In the first consideration of its kind, Russia has said it would consider offering American whistle-blower Edward Snowden asylum while one public official referred to him as a human rights activist (Photo: EWAN MACASKILL/AP)

In the first consideration of its kind, Russia has said it would consider offering American whistle-blower Edward Snowden asylum while one public official referred to him as a human rights activist (Photo: EWAN MACASKILL/AP)

In a statement released by Booz Allen on Tuesday, the firm admonished his leaks as a “grave violation to their code of conduct and core values of our firm.”

“We will work closely with our clients and authorities in their investigation of this matter,” the statement continues.

The current whereabouts of Snowden, who previously boasted to the Guardian of earning $200,000 from his position in Hawaii, is unknown.

He was last linked to Hong Kong as of Monday afternoon while previously expressing plans to seek asylum abroad rather than face an ongoing federal investigation back in the States.

On Tuesday Russia expressed the first interest in making such an offer to him.

“If such an appeal is given, it will be considered. We’ll act according to facts,” Vladimir Putin’s spokesman Dmitry Peskov told Russian newspaper Kommersant on Tuesday.

Snowden has not made any known requests to any country so far.

The now former IT contractor and CIA employee previously voiced a desire for asylum in Iceland, telling the Guardian, “My predisposition is to seek asylum in a country with shared values.”

Russia until now has shown little reaction to Snowden’s alleged security crimes in the U.S. with the Kremlin’s intelligence agencies already known for conducting domestic surveillance of their own.

Other European countries, notably Germany, have seen public uproar and discontent over what many consider heavily intrusive U.S. surveillance operations, as revealed by Snowden’s series of leaks.

Snowden's whereabouts are currently unknown after checking out of this Hong Kong hotel on Monday afternoon (Photo: WING VIA WIKIPEDIA)

Snowden’s whereabouts are currently unknown after checking out of this Hong Kong hotel on Monday afternoon (Photo: WING VIA WIKIPEDIA)

Snowden’s reports showed Verizon was transmitting call data on its networks to the government on an ongoing basis. Other phone carriers were also found to be doing the same — adding to the information in a massive government database.

Alexei Pushkov, Russia’s chairman of the Foreign Affairs Committee in Duma, was one of the first to publicly express support for Snowden whom he referred to as a “human rights activist” on Tuesday.

“By promising asylum to Snowden, Moscow has taken upon itself the protection of those persecuted for political reasons. There will be hysterics in the U.S. They only recognise this right for themselves,” he posted to Twitter.

“Listening to telephones and tracking the Internet, the U.S. special services broke the laws of their country. In this case, Snowden, like Assange, is a human rights activist.”

On Monday afternoon Snowden checked out of a Hong Kong hotel leaving his current whereabouts unknown.

Some have argued his decision to flee to Hong Kong was a mistake as there is a 1996 extradition treaty between it and the U.S., in which each promises to surrender any individual wanted for prosecution by the other.

Snowden has instead expressed his belief that the people would protect him.

“Hong Kong has a reputation for freedom in spite of the People’s Republic of China. It has a strong tradition of free speech,” he told the Guardian on Sunday.

 

Source: New York Daily News

 

Cinebiografia de Hillary Clinton deve sair durante sua possível campanha presidencial, em 2016

(AP)

A cinebiografia sobre Hillary Clinton (com roteiro de Young Il Kim que entrou para a lista de 2012 do jornal The Guardian de melhores roteiros ainda não transformados em filme) está a caminho de se tornar uma possível arma política. Segundo o site Deadline o filme deverá ser lançado em 2016, de forma que coincidiria com as primárias da possível campanha presidencial de Hillary pelo Partido Democrata.

Rodham, que conta a história da vida da política quando jovem, mostra Hillary quando ela ainda decidia entre a carreira, depois de se formar pela Escola de Direito de Yale, e seu futuro marido, que se tornaria o presidente dos Estados Unidos Bill Clinton. James Ponsoldt foi contratado para dirigir.

Ano passado, o lançamento de A Hora Mais Escura causou polêmica. Os políticos de direita foram contra a chegada do filme aos cinemas durante a época de eleição presidencial com medo que ele influenciasse as pessoas.

 

Fonte: Rolling Stone

 

Duncan Kennedy e o pensamento jurídico crítico nos EUA

Por Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy

 

Duncan Kennedy foi um dos principais protagonistas do movimento de contra-cultura jurídica dos Estados Unidos, ao longo da década de 1980. Leciona na Harvard Law School. Deixa-nos, entre tantos textos, um manifesto para uma educação jurídica de feição crítica (Legal Education as Training for Hierarchy), um comentário sobre os textos clássicos de Blackstone (The Structure of Blackstone’s Commentaries), um inusitado manifesto-diálogo, escrito com Peter Gabel (Roll over Beethoven), um livro de crítica e problematização da concepção de decisões jurídicas (A Critique of Adjudication – Fin de Siècle) e um conjunto de ensaios sobre poder e políticas de identidade cultural (Sexy, Dressing etc.).

Duncan Kennedy afirmou que as faculdades de direito são locais de intensa prática política, nada obstante o fato de que se dissimulem intelectualmente despretensiosas, estéreis de ambição teórica ou de visão prática no que toca ao que a vida social deva ser[1]. O aluno de direito buscaria mobilidade social, e é raro que seus pais efetivamente desaprovem que seus filhos frequentem um curso jurídico, não importando a origem social das famílias[2].

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O ambiente do curso de direito reproduziria convenções de poder, os professores são majoritariamente brancos, do sexo masculino, pretensamente corretos nas atitudes, com todos os maneirismos de classe média[3]. Para o professor de Harvard, a sala de aula de primeiro ano de uma faculdade de direito é culturalmente reacionária[4].

O curso de direito legitimaria o modelo hierárquico, promovendo a justificação para os modelos normativos que fermentam as relações de poder numa sociedade capitalista[5]. Há livro de vulgarização referente às tormentas que o primeiro ano do curso de direito provoca no aluno norte-americano, de autoria de Scott Turrow[6]. O texto de Kennedy sobre educação jurídica também circulou em forma de uma edição-panfleto, em cor vermelha[7], o que certamente guarda semelhanças com o livro vermelho da revolução cultural chinesa de Mao[8].

Sob pesada influência dos modelos historiográficos de Edward Palmer Thompson, historiador inglês de esquerda que estudara a questão agrária na Inglaterra medieval[9], a par da formação da classe operária inglesa, ativista, pacifista, Duncan Kennedy elaborou texto a propósito da estrutura dos comentários de William Blackstone. Redigidos entre 1756 a 1759, os aludidos comentários de Blackstone analisam as leis da Inglaterra, em mais de duas mil páginas, divididas em quatro volumes, dispostas em aparente lógica binária, com fragmentação em rights e wrongs[10].

Denuncia Kennedy que os comentários de Blackstone plasmavam um instrumento apologético, mistificando dominadores e dominados, convencendo-os da naturalidade, da liberdade, da racionalidade da condição do servo[11]. O método usado por Kennedy ao comentar Blackstone também nos remete ao modo estruturalista de análise, como encontrado nos trabalhos de Claude Lévi-Strauss[12].

Roll over Beethoven é texto-diálogo, altamente subversivo, a começar pelo título, que evoca nostálgico rock and roll gravado por Chuck Berry em 1956. Kennedy dá início à fala acusando Peter Gabel[13] de trair o projeto do movimento crítico do direito norte-americano ao tentar conceituá-lo[14]. Duncan Kennedy propõe um positivismo de combate, sugerindo que advogados progressistas ligados ao movimento crítico deveriam convencer juízes de que deveriam agir e de que lidavam com causas dependentes de decisões concretas[15].

Kennedy propõe atitudes prospectivas e de tal modo descaracteriza e desautoriza o niilismo que supostamente marcava o grupo. Otimista, Kennedy propunha que a luta para propiciar força liberatória no discurso político dominante poderia, em alguns casos, ser energizante[16]. O texto provocou reações ásperas, a ponto de um professor da universidade de Maryland ter reputado o excerto como um monte de lixo (a pile of crap)[17].

No livro A Critique of Adjudication, que é recente (de 1997) Duncan Kennedy reafirma o eixo temático crítico que vem desenvolvendo desde a conferência de Madison. Define o livro como um trabalho de teoria social escrito a partir de um ponto de vista de esquerda e modernista/pós-moderno[18].

Relativista, Kennedy admite que o papel do direito (the rule of law) exerce importante função nos vários modelos de governo e na ordem social de inúmeros países democráticos e capitalistas, embora não protagonizem o mesmo papel nos diferentes sistemas que menciona[19]. Toca em temas afetos ao marxismo clássico, citando o próprio filósofo de Trier, a propósito da alienação, e lembrando que há por parte das pessoas tendência à alienação dos próprios poderes[20].

Identifica as diversas tipologias atinentes à teoria da prestação jurisdicional; lembrando o binômio dedução e atividade legislativa do judiciário em Hart, a ideia robusta de julgamento enquanto atividade legislativa do judiciário em Mangabeira Unger, a concepção de dedução, coerência e percepção política pessoal em Dworkin, entre outras[21]. A própria definição de regras jurídicas (legal rules) suscita conflitos ideológicos, inseridos em sociedade ideologicamente dividida[22].

Kennedy assume a ideologia como uma universalização de interesses de grupo (universalization of group interests)[23]. E é a política que agindo como um cavalo de Tróia traduz a ideologia em regras jurídicas[24].

Um dos pontos mais elaborados do livro consiste nas abertas críticas que Duncan Kennedy fez a Ronald Dworkin, ao analisar o pensamento do juiz Hercules. Trata-se Hercules de figura metafórica engendrada por Dworkin; aparece no ensaio Hard Cases e é descrito como detentor de habilidades sobre-humanas, sabedoria, paciência e perspicácia[25].

O problema consiste em se entender concretamente os mecanismos que informam e que marcam a atividade judicial, no que toca ao trabalho artesanal do julgador, dúvida que persiste intrigando o pensamento jurídico ocidental. A problematização do fato, sem necessariamente apresentar-se soluções, é que consubstancia um ensaio discursivo, que matiza um plano de ação. Nominando o projeto de mpm (modernism/postmodernism) Duncan Kennedy antecipadamente responde aos críticos[26], insistindo que não há concepção niilista adjacente à ideia de se repensar os modelos de adjudicação (adjudication) no significado inglês da expressão, referente a protótipos de decisões judiciais.

Em 1993 Duncan Kennedy publicou ensaio sobre ações afirmativas e as projeções da questão em âmbito de academia jurídica[27]. Ações afirmativas são debatidas nas cortes americanas desde 1974 (caso DeFunnis), ganharam muita discussão em 1978 (caso Bakke)[28] e ainda hoje dividem a opinião pública dos Estados Unidos. Trata-se de reservas de cotas em universidades (por exemplo) para egressos de minorias (especialmente raciais); os prejudicados matizam as ações afirmativas com o nome de discriminações reversas. Kennedy assume que um princípio democrático geral diz-nos que as todas as pessoas devem possuir representação nas instituições que exercem poder e influência em suas vidas. Consequentemente, a diversidade cultural deve ser estimulada, e com isto se potencializa a qualidade e o valor dos estudos de direito[29].

Os estudos e a ação docente de Duncan Kennedy caracterizam seu trabalho como referencial em estudos movimento crítico nos Estados Unidos. Diferente, inovador, ousado, irreverente, Kennedy bem consubstancia atitude conceitual que insiste que direito é política.

 


[1] KENNEDY, Duncan. Legal Education as Training for Hierarchy, in KAIRYS, David (ed.), The Politics of Law – a Progressive Critique, p. 54. Tradução e versão livre do autor. Law schools are intensely political places despite the fact that they seem intellectually unpretentious, barren of theoretical ambition or practical vision of what social life might be.
[2] KENNEDY, Duncan. Op.cit., p. 55. Tradução e versão livre do autor. It is rare for parents to actively disapprove of their children going to law school, whatever their origins.
[3] KENNEDY, Duncan. Op.cit., p. 56. Tradução e versão livre do autor. The teachers are overwhelmingly white, male, and deadeningly straight and middle class in manner.
[4] KENNEDY, Duncan. Op.cit., loc.cit. Tradução e versão livre do autor. The law school classroom at the beginning of the first year is culturally reactionary.
[5] KENNEDY, Duncan. Op.cit., p. 72.
[6] TUROW, Scott. One L. O título refere-se ao primeiro ano do curso de direito, onde One refere-se ao ano e L a Law, direito.
[7] MINDA, Gary. Op.cit. p. 112.
[8] GOLDMAN, Merle e FAIRBANK, John King, China, a New History, p. 383 e ss.
[9] Há tradução portuguesa de Whigs and Hunters, Senhores e Caçadores, livro que influenciara Duncan Kennedy.
[10] GOLDBERG, John C. P. Blackstone’s Commentaries on the Laws of England, in HALL, Kermit L. (ed.) The Oxford Companion to American Law, p. 67.
[11] KENNEDY, Duncan. The Structure of Blackstone’s Commentaries, in HUTCHINSON, Allan C. (ed.), Critical Legal Studies, p. 139.
[12] MINDA, Gary. Op.cit., p. 115.
[13] Pete Gabel lecionava direito na California, especificamente na New College of California Law School.
[14] KENNEDY, Duncan. Roll Over Beethoven, 36 Stanford Law Review, p. 1.
[15] KENNEDY, Duncan. Op. cit. p. 29.
[16] KENNEDY, Duncan. Op. cit.,p. 37.
[17] MINDA, Gary. Op.cit., p. 122.
[18] KENNEDY, Duncan. A Critique of Adjudication- Fin de Siècle, p. 1. Tradução e versão livre do autor. It is a work of general social theory written from a leftist and a modernist/postmodernist point of view.
[19] KENNEDY, Duncan. Op.cit., p. 13.
[20] KENNEDY, Duncan. Op.cit., p. 18.
[21] KENNEDY, Duncan. Op.cit., p. 37.
[22] KENNEDY, Duncan. Op.cit., p. 39.
[23] KENNEDY, Duncan. Op.cit., p. 41.
[24] KENNEDY, Duncan. Op.cit., p. 111.
[25] DWORKIN, Ronald. Taking Rights Seriously, p. 105. Tradução e versão livre do autor. (…) superhuman skill, learning, patience and acumen (…)
[26] KENNEDY, Duncan. Op.cit., p. 359.
[27] KENNEDY, Duncan. A Cultural Pluralist Case for Affirmative Action in Legal Academia, in KENNEDY, Duncan, Sexy, Dressing etc., p. 34 e ss.
[28] SPANN, Girardeau. The Law of Affirmative Action- Twenty- Five Years of Supreme Court Decisions on Race and Remedies, p. 15 e ss.
[29] KENNEDY, Duncan. Op.cit., p. 34.

 



arnaldo-sampaio-moraes-godoy-spaArnaldo Sampaio de Moraes Godoy é livre-docente em Teoria Geral do Estado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, doutor e mestre em Filosofia do Direito e do Estado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

 

 

Fonte: Revista Consultor Jurídico