São Paulo

Dicionário de Paulistanês é criado para melhorar receptividade dos turistas

Captura de Tela (9)(Imagem: Divulgação)

Faltando pouco mais de quatro meses para o início da Copa do Mundo de Futebol no Brasil e com o objetivo de melhorar ainda mais a receptividade dos turistas que vêm para a capital paulista, a São Paulo Turismo (SPTuris) Acaba de lançar o Dicionário de Paulistanês.

Disponível na versão on-line acessível pelo site cidadedesaopaulo.com/paulistanes, trata-se de um compilado bem-humorado e descontraído de palavras, gírias e expressões faladas na cidade de São Paulo, que servirá como guia para turistas, visitantes e até mesmo para moradores.

Ao todo, o Dicionário de Paulistanês possui mais de 150 palavras acompanhadas de foto, além de tradução em inglês e áudio, típicas da fala do paulistano. Em cada verbete também há exemplos de uso em situações do cotidiano informal.A maioria dos vocabulários do paulistano é proveniente da diversidade cultural e de costumes encontrados na cidade, conhecida pela característica cosmopolita. Há influência dos quatro cantos do Brasil e do mundo, como o “bafão” originário do francês “basfond”, o “best” do inglês “best-friend” ou o “C” do português “vossa mercê”.

Balaio linguístico

Assim como em outras cidades brasileiras a “carne seca” é chamada de “charque” ou “jabá”, em São Paulo é possível aprender o significado de palavras como “sinal”, que vira “farol” para indicar a sinalização de trânsito, o “meio-fio” ou também “guia” da calçada, e o “totó”, clássico jogo de futebol de mesa apelidado de “Pebolim” em paulistanês, entre muitas outras.

Na seção de “Gastronomia”, os curiosos poderão descobrir como é chamado, em São Paulo, uma bergamota, um pão com manteiga ou assado no forno. O público vai saborear o significado de “geladinho” (o chupe-chupe) e compreender o que é comer um “virado à paulista”, uma “mistura” ou tomar um “pingado”.

Além de um glossário completo da linguagem “paulistânica” e de um rico cardápio gastronômico, há também algumas regras ortográficas e fonéticas em “Mania de Paulistano”. Um exemplo é o fenômeno da supressão do “r” em verbos no infinitivo, como “eliminá” em vez de “eliminar”, ou ainda expressões tradicionais com discordância verbal, como visto na célebre frase “Um chopps e dois pastel”.

Os diferentes sotaques de São Paulo, como o italiano do bairro do Bixiga, o sírio-libanês da região da Rua 25 de Março, o coreano do Bom Retiro ou o boliviano do Pari, entre outros, não poderiam estar de fora e podem ser encontrados em “Dialetos da Cidade”.

Por fim, conversas corriqueiras do dia a dia, que a princípio parecem complicadas de serem compreendidas por quem é de fora, são facilmente explicadas em “Traduções”. Ficou curioso? Então, não fique “boiando” e corra para Dicionário de Paulistanês. E aproveite porque está “na faixa”.

Os interessados também podem contribuir e enviar sugestões de novas palavras, gírias e expressões para que o conteúdo do glossário seja colaborativo e o mais completo possível.

O Dicionário de Paulistanês está disponível aqui.

 

Fonte: DCI

Músicas de Adoniran e muita poesia estão na 10ª edição do “Sampoema”

Divulgacao_Caco_Pontes_Foto_Manoela_CardosoCaco Pontes (por Manoela Cardoso / divulgação)

A Casa das Rosas entra em clima de festa para comemorar o aniversário da cidade de São Paulo. No sábado, 25 de janeiro, o espaço recebe a 10ª edição do Sampoemas, evento que conta com contação de histórias, músicas de Adoniran Barbosa, show performático e muito mais. As atrações começam às 14h e se estendem até as 20h. A entrada é Catraca Livre.

Quem gosta de boa música pode acompanhar o “Jabá Sintético” que rola às 16h. O Conjunto João Rubinato apresenta uma seleção de canções pouco conhecidas do compositor paulista, temperadas com histórias pitorescas e de Adoniran.

Às 18h, Caco Pontes & Loop apresentam um show performático em homenagem a Roberto Piva. Para encerrar, ocorre um sarau de poesias, às 20h.

Confira abaixo a programação completa:

14h: Contação de história “São Paulo, minha cidade” – Com Marina Bastos

16h: Jabá Sintético: as músicas de Adoniran que a rádio não toca – Com Conjunto João Rubinato

18h: Show performático – Homenagem a Roberto Piva – Caco Pontes & Loop B

20h: Sarau Sampoemas – Com Frederico Barbosa

 

Fonte: Catraca Livre

São Paulo flexibiliza lei para incentivar o uso de bicicletas

GIOVANA PASQUINIFoto @ Giovana Pasquini

A Comissão de Proteção à Paisagem Urbana, da Prefeitura de São Paulo, autorizou a flexibilização da lei Cidade Limpa para divulgação de um programa de incentivo ao uso de bicicletas como meio de transporte na cidade.

Por nove votos favoráveis contra três contrários, a comissão permitiu a propaganda em 5 mil ônibus e 3 mil táxis da cidade, durante um mês, do projeto Pedala São Paulo, que tem o apoio do empresário João Paulo Diniz –família fundadora do Grupo Pão de Açúcar.

A permissão, que vale por 30 dias, também valerá para 60 bicicletários e tem “finalidade cultural”. Com isso, não poderá fazer menção a nenhuma marca. O projeto tem o aval do secretário municipal de Esportes, Celso Jatene.

Essa não é a primeira vez que a lei, de 2007, ganha ressalvas. Em julho de 2010, o então prefeito Gilberto Kassab (PSD) — que implementou a lei — autorizou a propaganda em luminosos dupla face que ficam em cima dos carros com mensagens relativas a eventos turísticos, como Parada Gay, Fórmula 1, Indy e Virada Cultural, feiras, exposições e atrações culturais da cidade.

Na ocasião, a exceção partiu de um acordo entre a SPTuris e uma agência de marketing.

Na gestão Fernando Haddad (PT), esta é a segunda vez que há flexibilização da lei. Em abril passado, a prefeitura liberou cartazes de peças e apresentações em teatros e casas de shows na cidade.

 

Fonte: Folha de S. Paulo

Curta de português ganha prêmio de melhor filme no Anima Mundi

Animação “Feral”, de Daniel Sousa

O curta Feral, do português Daniel Sousa, foi escolhido pelo júri profissional do Anima Mundi como o melhor filme do festival. Com isso, a animação passa a ser indicada para a pré-seleção do Oscar de 2014. O anúncio foi feito na noite de ontem, na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro (RJ), no último dia do evento na cidade.

O filme é feito com animação clássica, em desenho, e conta a história de um garoto encontrado na floresta e sua adaptação à vida em sociedade.

Sousa, 39, diz que o Anima Mundi é um dos mais prestigiados e melhores festivais do mundo, por isso ser selecionado já havia sido uma honra. “Ganhá-lo, então, está além da minha compreensão.”

Ele diz que a chance de concorrer ao Oscar é um bônus, mas que ele não acredita que o filme vá muito além disso. “Seria muito legal ser um dos indicados, mas eu não estou contando com isso. Estou muito mais animado com o prêmio real no Anima Mundi.”

Veja o trailer do curta:

“Eu sabia que queria lidar com a ideia do que define um ser humano, em contraste com o mundo animal, ou mesmo no vácuo, então a noção de extrair uma criança da sociedade e colocá-la na natureza parecia uma solução”, diz.

Ele então pesquisou diversas histórias de crianças selvagens ao longo da história. “Adorei como fatos reais estavam geralmente entrelaçadas com lendas urbanas, contos de fadas e mitos. Eventualmente, criei minha própria história amalgamada.”

POPULARES

O público do festival foi em uma direção diferente e preferiu o curta alemão “Der Notfall”, de Stefan Müller, que mistura diferentes técnicas de animação, como modelagem 3D, recortes e desenho. A obra mostra um dia de um jovem e suas desventuras envolvendo bares, sua família, um ambulância e uma vaca apaixonada.

O filme franco-belga “Couleur de peau: Miel (Aprovado para adoção)”, de Laurent Boileau e Jung, foi escolhido como melhor longa.

O melhor curta brasileiro, de acordo com o público carioca, foi “Faroeste: Um Autêntico Western”, dirigido por Wesley Rodrigues, da Escola Goiana de Desenho Animado.

O Anima Mundi chegou em São Paulo nesta quarta-feira (14/08), com exibições no Cine Olido e no Espaço Itaú de Cinema.

Confira a lista completa dos vencedores

anima-mundi-2013-festival

COMPETIÇÃO ANIMA MULTI

Júri Popular“Separado”, de Mark Borgions – Bélgica
Júri Profissional“Shave it”, de Jorge Tereso e Fernando Maldonado – Argentina
PRÊMIO CANAL BRASIL“Ed.”, de Gabriel Garcia – Brasil

PRÊMIOS DO JÚRI POPULAR

Melhor Curta“Der Notfall”, de Stefan Muller – Alemanha
Melhor Curta Infantil: “Sempre cabe mais um (Room on the broom)”, de Max Lang e Jan Lachaue – Reino Unido
Melhor Curta Brasileiro“Faroeste: um autêntico Western”, de Wesley Rodrigues – Brasil
Melhor Curta de Estudante“Oh Sheep!”, de Gottfried Mentor – Alemanha
Melhor Longa“Couleur de peau: Miel (Aprovado para adoção)”, de Laurent Boileau e Jung – França/Bélgica
Melhor Longa Infantil“Zambézia”, de Wayne Thornley – África do Sul

PRÊMIOS DO JÚRI PROFISSIONAL

Melhor Concepção Sonora“Beep beep beep”, de Jeremy Diamond – Canadá
Melhor Direção de Arte“Requiem for romance”, de Jonathan NG – Canadá
Melhor Roteiro“A coelha e o veado”, de Péter Vácz – Hungria
Melhor Técnica de Animação“Le grand ailleurs et le petit ici”, de Michèle Lemieux – Canadá
Melhor Filme de encomenda“Dumb ways to die”, de John Mescall e Pat Baron – Austrália

MELHOR FILME ANIMA MUNDI 2013“Feral”, de Daniel Sousa – EUA/Portugal

 

 

Fonte: Folha de S. Paulo

Arqueologia em São Paulo: cidade oculta │ última parte

Uma nova arqueologia floresceu com a expansão de grandes obras. Mas os profissionais trabalham sob pressão: nem sempre o levantamento do sítio histórico é feito a tempo de evitar perdas.

Solar da Marquesa @ Foto: Maurício de Paiva

Nos últimos anos, toda a área ao redor do metrô – um horrendo vazio urbano que nunca se definiu entre ser praça, confluência de avenidas e terminal de ônibus – se tornou terreno fértil aos arqueólogos. Em uma primeira etapa de escavações, de 2009 a 2010, 30 mil objetos – vasos, xícaras e tinteiros, entre outras louças de origem estrangeira – foram retirados, a maior parte do século 19. Garrafas de vinho do Porto e de cervejas holandesas apontam para a hipótese da existência de uma taverna, em uma parada de viajantes em direção, por exemplo, a Sorocaba, tradicional destino de tropeiros vindos da região Sul do Brasil carregados de mercadorias.

A origem de Pinheiros confunde-se com a da própria cidade: logo em 1560, jesuítas criaram um aldeamento na margem direita do rio hoje homônimo. “Parte do caminho indígena Peabiru passava pelo que é hoje a rua Butantã”, conta Juliano Meneghello, de 33 anos, que chefia uma segunda fase de escavações. Chácaras e fazendas ilustravam o clima rural do bairro, antes de ele começar a se transformar de vez, em fins do século 19, com a chegada dos imigrantes. A canoa era um meio de transporte comum desses ribeirinhos paulistanos. Até que, a partir de 1940, obras de retificação do leito foram iniciadas para acabar com as enchentes e redirecionar as águas para o reservatório Billings e a usina hidrelétrica de Henry Borden, na serra do Mar, transformando aos poucos o curso d’água sinuoso e ladeado por árvores em um canal de esgoto linear e sem vida. (No verão deste ano, nuvens de pernilongos que encontram na água suja e parada um criadouro ideal infernizaram a vida dos moradores.)

Meneghello caminha pelo canteiro-sítio com uma cópia do primeiro mapa conhecido do bairro, de 1897, que mostra o traçado de algumas ruas ainda atuais. “Uma igreja de 1871 está sob a atual, a de Nossa Senhora do Monte Serrate”, diz ele, indicando o templo cristão enquanto segue até uma mancha de terra preta e fofa no subsolo. Ele me apresenta seu mais intrigante achado: estacas de madeira fincadas que serviam de reforço para o alicerce das construções. Boa parte da área escavada é de casas da década de 1930, sobre as quais foram erguidos prédios nos anos 1960 – a arquitetura do bairro antes do começo da atual fase de demolição. Por todos os lados brotam utensílios de uso doméstico: vidros, louças, uma boneca de porcelana. Um poço é identificado a menos de 1 metro da superfície, com restos de carvão. “As casas da época ainda mantinham lixeiras para queimar os resíduos”, diz.

O arqueólogo sai do canteiro e senta-se comigo em um bar na esquina da obra. Ofereço um café, mas ele não aceita. Concentrado e confiante, Meneghello parece estar permanentemente refletindo sobre as reentrâncias da terra que vasculha e as possibilidades que se oferecem à medida que as camadas de solo e ruínas vão surgindo. “No princípio, cogitamos até mesmo a hipótese de as estacas de madeira serem de palafitas, pois boa parte do bairro era uma várzea. Agora sabemos que não são. A cada metro, reidentificamos melhor o espaço”, conta. É começo de fevereiro, o céu fecha de repente, e ele parte de novo para seu canteiro cheio de histórias ocultas. Eu me refugio na igreja vazia e escura enquanto a tempestade desaba sobre carros aprisionados pela enxurrada, pedestres ensopados e os restos de uma cidade em incessante transformação.

Essa é a paisagem do arqueólogo urbano. “Algumas vezes, depois de sair de uma escavação em uma área central, as pessoas me olham com pena e medo. Parecem pensar: pobre garota de classe média, toda suja de barro; virou mendiga ou viciou-se em drogas e acabou na rua”, conta Paula Nishida, bem-humorada. Ou seja, por enquanto, o arqueólogo é uma criatura invisível nas ruas da cidade, ao contrário do advogado de terno a caminho do escritório, do médico de branco, do estudante de mochila nas costas, do motoboy apressado. “Nessas ocasiões, já me flagrei pensando no Indiana Jones perambulando por São Paulo”, diz ela. “O herói do cinema perdido no metrô, bravo no trânsito, ilhado por um temporal de verão. Ou mesmo sendo assaltado. Seria, com certeza, sua maior aventura.”

 

Fonte: National Geographic Brasil

Arqueologia em São Paulo: cidade oculta │ 3ª parte

E A MORTE SURPREENDEU a todos com um rosto contundente: para espanto dos cientistas, dona Amélia estava mumificada, com cabelo, pele, cílios, unhas e vários órgãos internos preservados. Descrita como mulher de grande beleza e parente do ex-imperador francês Napoleão Bonaparte, ela casou-se por contrato com dom Pedro I, em 1829 – tinha 17 anos, e ele, 31. Viveu menos de dois anos no Brasil, antes de acompanhar o marido no regresso à Europa, em 1831. “Em Portugal do século 19, os médicos aplicavam um tratamento apenas para inibir a decomposição até o fim dos funerais, que duravam três dias. Mas o embalsamamento dela perdurou”, diz Valdirene. Além disso, um novo tratamento foi dado ao corpo para seu envio ao Brasil, em 1982 – ao abrir a urna agora, os cientistas puderam sentir o aroma de cânfora, uma das substâncias usadas.

Dona Amélia mumificada @ Foto: Maurício de Paiva

Em operações secretas na calada da noite, os três corpos reais foram levados até a Faculdade de Medicina da USP para exames de imagem. Com as tomografias, especialistas puderam examinar tudo em separado – o caixão, o corpo e as vestes. Descobriu-se que o vestido e a faixa com as quais dona Leopoldina foi enterrada são os mesmos que usou na coroação de dom Pedro, registrada em um famoso quadro do pintor neoclássico francês Jean-Baptiste Debret, que viveu no Brasil entre 1816 e 1831. “O vestido, para nós, surgiu como se fosse a carteira de identidade da imperatriz”, diz Carlos Augusto Pasqualucci, médico e professor de patologia.

Técnicas de física atômica e nuclear, como a fluorescência de raios X, permitiram, pela primeira vez no Brasil, analisar contaminações em remanescentes humanos e materiais associados. “Em dom Pedro, havia altas concentrações de chumbo, provenientes do caixão, além de cobre e zinco, possivelmente de objetos de vestimenta, como botões e esporas”, diz Márcia Rizzutto, do Instituto de Física da USP. Um acelerador de partículas foi usado para identificar que as medalhas do imperador são feitas de uma liga de ouro, prata e cobre; a tecnologia é chamada de Pixe (sigla, em inglês, para “emissão induzida de radiação X por partículas”). “São métodos não destrutivos de análises, usados para aferir a autenticidade em obras de arte, como pinturas. No nosso caso, serão importantes para a preservação dos artefatos recolhidos”, completa Valdirene.

De cabelo curto, olhar melancólico e gestos suaves, a arqueóloga preserva convicções monarquistas e prefere não discutir se dom Pedro é herói ou vilão, como polemizam certas biografias. Mais lhe interessa a figura humana. Nascido em Portugal e criado no Brasil, o jovem herdeiro da casa real de Bragança não desfrutou da mesma formação fina de sua esposa Leopoldina, uma Habsburgo, das dinastias mais nobres da Europa. “Ele não teve educação para ser um monarca. Muito jovem, pegou nas mãos a responsabilidade de construir uma nação, sem estrutura emocional e intelectual para isso. E teve o azar de perder cedo Leopoldina, que havia sido preparada para governar e dava todo suporte ao marido”, diz.

Alçado à posição de príncipe regente em um período político turbulento, após a volta de dom João VI a Portugal, em 1821, o herdeiro do trono português – cujo nome completo é Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon – incorporou o espírito liberal que culminou na independência do Brasil, enfrentando a resistência de tropas leais a Portugal e os movimentos de secessão em regiões isoladas de um país que nascia enorme, pobre, analfabeto, escravocrata e refém da economia agrária do latifúndio. Formou exércitos, batalhou pela integridade territorial, promulgou duas Constituições ousadas – a primeira, de 1824, permitia, por exemplo, liberdade religiosa – e defendeu sua causa ideológica ante os absolutistas, caso de seu irmão dom Miguel, contra o qual decidiu combater em Portugal, abdicando do trono no Brasil em abril de 1831.

Era baixo para nossos padrões: entre 1,67 e 1,73 metro, atestam os estudos na cripta. Gostava de exercício físico, caça e marcenaria, mas se aventurou na música; compôs até missas, diz Valdirene. A equitação foi um hobby e, em parte, seu algoz. A tomografia apontou fraturas em quatro costelas do lado esquerdo, com sequelas graves em um dos pulmões, provenientes de acidentes de cavalo – um deles de carruagem, quando estava na companhia de dona Amélia e da filha Maria II, em 1829. As lesões, cogita-se, podem ter agravado a tuberculose, que o vitimou, aos 36 anos, em 1834, em Portugal.

Ao abdicar da coroa três anos antes, dom Pedro não desfrutava do mesmo prestígio popular, pressionado por problemas políticos e condenado por sua buliçosa vida sentimental: teve 18 filhos com suas duas esposas e várias amantes – a mais famosa delas, Domitila de Castro Campo e Melo, a marquesa de Santos. Nenhuma insígnia brasileira estava entre as cinco medalhas achadas junto aos restos, tampouco suas vestes fazem referência ao império dos trópicos que ajudou a conceber. O primeiro imperador do Brasil foi enterrado como dom Pedro IV de Portugal, com botas de cavalaria, abotoaduras, esporas e botões da farda típicos de um general da nação ibérica. “Ele não queria deixar o Brasil. Seu temperamento não era de português, mas de brasileiro. Inclusive no defeito de ser mulherengo”, diz Valdirene.

Ela admite que Dom Pedro tinha um histórico de violência doméstica – tolerável na sociedade patriarcal da época –, mas os resultados dos exames reforçam, agora, a avaliação de que não houve atentado contra a vida da própria mulher. A tomografia de dona Leopoldina não revelou marcas de fratura. A arcada dentária estava preservada; apenas um dente não foi localizado. “A imperatriz atravessava um momento psicológico ruim. Estava triste pelo tratamento dado pelo marido à marquesa de Santos. A traição tornouse pública. Além disso, ela teve gestações sucessivas, e nunca se adaptou ao calor do Rio de Janeiro. Estava deprimida, grávida e fragilizada”, diz.

As datas também elucidam, argumenta a arqueóloga, que investigou documentos do Museu Imperial, em Petrópolis. Dom Pedro saiu do Rio em viagem à convulsionada província de Cisplatina (hoje Uruguai) em 23 de novembro de 1826, mas a esposa só teve a gravidez interrompida em 2 de dezembro. Com um pontapé ou outra agressão, ela abortaria em questão de horas, não nove dias depois. “O aborto ocasionou febre alta e convulsão, até resultar em óbito, no dia 11. Qual a causa exata? Se o corpo estivesse tão preservado quanto o de dona Amélia, teríamos mais recursos para saber”, analisa. “Então, o que quero afirmar é: a morte dela não foi ocasionada por nenhum ato de violência. Isso não houve.”

A ARQUEOLOGIA, AOS POUCOS, revela os mistérios de São Paulo e seus personagens. Mas a história oficial nunca é o limite. Mesmo os primeiros colonizadores da cidade, no século 16, se valeram de estruturas herdadas de ocupações passadas. Os vales em que correm os atuais rios Tietê e Pinheiros eram ocupados por aldeias dispersas, conectadas a uma rede de caminhos. “Algumas de nossas ruas são trilhas que os índios abriram e das quais os portugueses se apropriaram”, conta Paula Nishida.

A vila, fundada por padres jesuítas em 1554, galgou importância por sua posição geográfica estratégica, seja por estar na rota de mineradores, seja pelo controle de vias fluviais. No século 19, foi convertida em capital de província e ganhou sua primeira Faculdade de Direito, a do largo São Francisco, o que contribuiu para a afirmação política e intelectual da cidade. Com a cafeicultura, que trouxe milhares de imigrantes para trabalhar nas lavouras e, depois, no emergente parque industrial, a população deu um salto impressionante: de 31,3 mil em 1872 para 580 mil em 1920 e mais de 2 milhões na década de 1950.

Em certos bairros, essa expansão súbita está registrada no subsolo, em camadas de ocupações recentes que se sobrepõem rasas e pouco estudadas. É fácil distinguir isso no projeto batizado de Reconversão Urbana do Largo da Batata e Entorno, que há três anos reconfigura um trecho de 800 mil metros quadrados no bairro de Pinheiros. A obra pública prevê melhorias no sistema viário, abertura de largos e recuperação de calçadas para o fluxo de pedestres, rumo à estação do metrô inaugurada em 2011.

C O N T I N U A . . .

 

Fonte: National Geographic Brasil