política

Escritor baiano é indicado ao Prêmio Nobel de Literatura

Luiz-Alberto-de-Vianna-Moniz-BandeiraLuiz Alberto Moniz Bandeira (Imagem: Divulgação)

O escritor baiano Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira, de 78 anos, foi escolhido pela União Brasileira de Escritores (UBE) para representar o Brasil no Prêmio Nobel de Literatura. A Academia de Letras de Minas Gerais se mostrou favorável à escolha, e apoiou a decisão da UBE.

Autor de mais de 20 livros sobre temas diversos, entre os quais poesia e política, Moniz Bandeira mora na Alemanha, onde exerce o cargo de cônsul honorário do Brasil na cidade de Heidelberg.

Várias de suas obras são adotadas no curso de formação de diplomatas do Itamaraty, a exemplo de ‘Formação do Império Americano – Da guerra contra a Espanha à guerra no Iraque’.

 

Fonte: iBahia

Grupo de empresários cria ‘prefeitura informal’ para ressuscitar Detroit

010_2nd AveImagem @ Renderização por Sasaki Associates

Um empório instalado em um prédio art déco, um supermercado famoso pelos produtos orgânicos e galpões convertidos em escritórios e lofts foram abertos no último ano no bairro de Midtown, em Detroit.

As novidades no bairro lembram mais o Soho, em Nova York, do que a cidade que pediu concordata em julho, com dívidas de US$ 20 bilhões e população em baixa.

Resultam de ações de um grupo de empresários e ativistas que criou uma “prefeitura informal” em uma cidade cujo governo municipal estará quebrado por anos.

Sue Mosey, a prefeita extraoficial, dirige a ONG Midtown Inc., que quer mudar a vocação do bairro. Com apoio de 150 fundações e empresas, compra e reforma galpões, converte-os em escritórios e prédios de apartamentos e atrai empresas, supermercados e restaurantes para lá.

Visit-DirecList_2Imagem: Midtown Detrit Inc.org

Em uma década, trouxe US$ 1,8 bilhão ao bairro.

“Há uma revolução demográfica no país e Detroit ficou no passado, com gente isolada nos subúrbios, fechada em shoppings”, diz. “Os jovens querem morar em zonas centrais, pedalar, encontrar os amigos em bares ou cafés.”

Até 2020, ela espera que o bairro chegue a 50 mil habitantes (de 12 mil em 2003, hoje são 26 mil). Os supermercados são parte da estratégia.

Com doações, a ONG está construindo uma ciclovia e bicicletários sob o programa “Midtown desmotorizado”.

Promove shows ao ar livre, feiras de produtos orgânicos e caminhões que servem comida rápida de qualidade. Microcervejarias e tecelagens estão se instalando ali. “Há uma volta da manufatura no país, mas Detroit está sempre dez anos atrás”, lamenta.

Midtown Arial 1-1Imagem: Midtown Detrit Inc.org

“Tivemos políticos terríveis, não podemos cruzar os braços e esperar a prefeitura melhorar -se pressionarmos por processos menos burocráticos na liberação de obras e na criação de novos negócios, estaremos lucrando.”

O milionário Dan Gilbert é outro que aposta no potencial da cidade natal. Fundador do banco hipotecário Quicken Loans e dono do time de basquete Cleveland Cavaliers, transferiu suas empresas do subúrbio ao centro.

Comprou 30 prédios históricos e dois terrenos. Em seis anos, virou o maior proprietário de imóveis da cidade depois da prefeitura e da GM.

Gilbert aposta na valorização de seus imóveis e investe em requalificar a área. Patrocinou a criação do programa local de compartilhamento de bicicletas, promove eventos esportivos e musicais e ajudou a bancar uma prainha no centro da cidade, inspirada na parisiense Paris Plage.

logo (1)

 Fonte: Folha de S. Paulo

Karen Armstrong e os perigos da fé

por REINALDO JOSÉ LOPES
em colaboração para a Folha de S. Paulo

A violência e a intolerância não são elementos inevitáveis no “DNA cultural” das religiões, mas sim efeitos colaterais da aliança entre fé e política, para os quais as tradições religiosas são capazes de desenvolver antídotos.

É o que afirma a escritora britânica Karen Armstrong, 68, que falou ao público brasileiro nos dias 6 e 8 deste mês, respectivamente em Porto Alegre e São Paulo, durante o ciclo Fronteiras do Pensamento.

Ex-freira, Armstrong estudou literatura inglesa na Universidade de Oxford e passou as últimas décadas produzindo documentários e escrevendo livros (como “Jerusalém” e “Maomé”) que investigam e celebram a história das grandes tradições religiosas do mundo, em especial as que adoram o Deus único da Bíblia e do Corão (judaísmo, cristianismo e islamismo).

“A ética da compaixão é o centro de todas essas grandes tradições, e é preciso retomá-la”, afirma Armstrong. “As pessoas é que são violentas, e não as abstrações que chamamos de religiões.”

Karen Armstrong (Photo: Michael Lionstar)

Karen Armstrong (Photo: Michael Lionstar)

Em entrevista à Folha, Armstrong disse que o ateísmo radical é um produto do fundamentalismo religioso e afirmou estar “encorajada” com os sinais de humildade do papa Francisco, embora não espere grandes mudanças dele. Confira a conversa.

Folha – É comum ouvir dizer que, ao longo da história, o monoteísmo acabou dando impulso à violência e à intolerância porque ele tende a ser exclusivista — supõe-se que seria mais difícil ser fundamentalista ou intolerante quando você aceita a existência de muitos deuses. A sra. concorda?

Karen Armstrong – Não, não concordo. Existem fundamentalistas entre os hindus, budistas e seguidores do confucionismo. Estou escrevendo um livro sobre religião e violência no momento, e a ideia de que o monoteísmo sempre foi uma força que impulsiona a violência é infundada.

A história mostra que nenhuma fé consegue se transformar numa “religião mundial” se não for adotada por um Estado ou império dinâmico e em expansão. Como os Estados são inerentemente violentos (nenhum Estado, por mais pacífico que seja, pode se dar ao luxo de acabar com seus exércitos), as religiões acabam adquirindo uma ideologia “imperial” que, portanto, é violenta.

Mas os monoteísmos, assim como todas as fés de alcance mundial, também desenvolveram uma alternativa contracultural que é não violenta e pacífica, tal como fizeram os budistas e os hindus. As pessoas é que são violentas, e não as abstrações que nós chamamos de “religiões”.

O que significa ser um monoteísta “freelance”, como a sra. se definiu certa vez? É possível transcender as raízes históricas distintas do judaísmo, do cristianismo e do islamismo e ainda assim se considerar monoteísta?

Esse é um termo que usei de forma casual uma vez e que tem me perseguido desde então.

Eu simplesmente quis dizer que era capaz de obter sustento espiritual de todas as três fés abraâmicas [referência ao patriarca bíblico Abraão, que seria ancestral dos judeus e dos árabes], e que não conseguia ver nenhuma delas como superior às outras. Cada uma delas tem seu próprio gênio e cada uma delas tem suas fraquezas e falhas.

Depois que afirmei isso, no entanto, estudei as religiões orientais não teísticas [que não acreditam em um deus, como o budismo], e sou capaz de encontrar igual inspiração nelas também.

O termo que normalmente aplico a mim mesma hoje em dia é o de “convalescente”. Estou em “fase de recuperação” depois de ter uma experiência religiosa ruim quando era moça [Armstrong tornou-se noviça num convento católico britânico no fim da adolescência e conta ter sofrido maus-tratos lá].

Ao ler seus livros, a impressão é que a sra. fala de Deus como um conceito importante e belo, mas que não necessariamente teria uma base real “fora” da mente humana. Se Deus não tem existência objetiva, por que se importar com Ele?

Nossas mentes possuem uma predisposição natural para a transcendência, ou seja, temos ideias e experiências que estão além do alcance de nossa compreensão. Todos nós buscamos momentos de “êxtase”, nos quais “ficamos de fora” (em grego, “ex-stasis”) do nosso eu. Se não encontrarmos isso na religião, vamos buscar tal sensação na arte, na música, na natureza, até mesmo no esporte.

Nesses momentos, sentimos que habitamos nossa humanidade de um jeito mais pleno, somos tocados profundamente dentro de nós, elevados momentaneamente para além de nós mesmos. “Deus” é um símbolo que, se usado de maneira apropriada, traz essa experiência e faz com que sintamos que nossa vida tem sentido e valor.

Como a sra. enxerga o movimento dos Novos Ateus, que defende que os não crentes tenham uma participação mais ativa e contestadora na sociedade, combatendo as ideias religiosas? Acha que é um sinal de um futuro cada vez mais secular no Ocidente e em outros países?

O Novo Ateísmo é, em grande medida, um produto do fundamentalismo religioso, o qual tentou domesticar a transcendência de “Deus” e acabou por transformá-lo em algo inacreditável.

Mas, ao longo da história, os monoteístas, por exemplo, insistiram que “Deus” não é um outro ser [necessariamente separado do homem] e que não podemos dizer que “ele” existe, porque nossa noção do que é a existência é limitada demais.

Na verdade, as pessoas estão ficando enjoadas de [Richard] Dawkins [zoólogo britânico], [Sam] Harris [neurocientista americano; ambos são expoentes dos Novos Ateus] etc. porque eles são agressivos e intolerantes demais. Acho que a Europa está de fato destinada a seguir o caminho do secularismo, mas os EUA continuam sendo um país muito religioso.

Quais são suas primeiras impressões sobre o papa Francisco?

Achei muito encorajador quando fiquei sabendo que ele abandonou seu palácio e adotou um estilo de vida mais simples. Mas ele ainda é conservador do ponto de vista teológico e ético, então não espere muitas mudanças!

Vários papas, diante da pressão para que o sacerdócio de mulheres fosse permitido na Igreja Católica, afirmaram que teologicamente isso seria impossível, já que Jesus escolheu como apóstolos apenas homens, e os sacerdotes atuais são os sucessores desses apóstolos. A ordenação de mulheres seria contrariar a decisão soberana de Jesus. Esse raciocínio é válido, na sua opinião?

Eu acho que Jesus ficaria surpreso ao ver qualquer tipo de sacerdócio no “cristianismo”, para começo de conversa! Ele não instituiu uma forma de sacerdócio. Os primeiros cristãos achavam que os sacerdotes só existiam no paganismo e no judaísmo; o modelo deles era mais igualitário. Não havia “sacerdotes”, ao menos não nos termos que nós poderíamos defini-los, até o século 3o da Era Cristã.

 

Fonte: Folha de S. Paulo

 

Livro analisa a pós-ditadura em países da América Latina

 

(Photo: iStock)

Fim de regimes militares mudou sociedade civil em 4 países da AL (Photo: iStock)

A sociedade civil de quatro países da América Latina –Argentina, Chile, Bolívia e Peru–, vista sob a lente analítica de seis célebres cientistas sociais. No foco, as Organizações Não Governamentais, em especial, as ONGs de “advocacy”, que trabalham para influenciar políticas públicas e/ou mudanças na legislação, além de fazer reivindicações ao governo, vigiar as suas ações e fiscalizar o uso de recursos públicos. O conjunto de ensaios sobre o tema resultou no livro “Usos, Abusos e Desafios da Sociedade Civil na América Latina”.

A década de ouro das ONGs no continente sul-americano compreende os anos de 1980 e 1990, quando a transição de ditaduras para democracias possibilitou maior atuação e profissionalização destas associações. Mas, de trincheiras da luta democrática na época a apêndices do Estado ou do setor privado hoje em dia, muitas destas instituições transformaram-se ao longo do tempo no que o livro chama de “organizações neogovernamentais”.

Segundo o organizador do livro, Bernardo Sorj, a grande maioria das ONGs na América Latina depende de financiamentos para existir. No período das ditaduras, este recurso vinha, em boa medida, do exterior. Mas, atualmente, a situação mudou. Os recursos que chegavam de fora diminuíram e o Estado passou a ser a principal fonte de financiamento. Em alguns casos, governos e políticos usam estas entidades para fortalecer bases eleitorais.

A partir dos casos nacionais, os ensaios de Bernardo Sorj, Gabriela Ippolito-O’Donnell, Gonzalo Delamaza, Fernando Mayorga, Aldo Panfichi e Mariana Alvarado lançam novo olhar sobre as sociedades civis nos quatro países. Eles analisam as formas de organização destas diferentes sociedades civis, as tensões e conflitos dentro do universo das ONGs, e, sobretudo, a complexa relação entre estas instituições, o sistema político e o Estado.

A semente que originou o livro surgiu durante um seminário que discutiu a relação entre sociedade civil e a democratização na América Latina, em 2009, em Buenos Aires. Do encontro, saiu a questão que mobilizou os autores na presente obra: qual o lugar das ONGs nas democracias latinoamericanas do século 21? O livro é o primeiro de uma coleção chamada “Plataforma Democrática”, que tem como objetivo ampliar e fortalecer o debate sobre as transformações da sociedade e da política na América Latina e no mundo.

 

Fonte: Folha de S. Paulo


1335Usos, Abusos e Desafios
da Sociedade Civil na América Latina

Organizador: Bernardo Sorj
Editora: Paz e Terra
Páginas: 156
Quanto: R$ 22,50 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090
ou pelo site da Livraria da Folha

Nova tradução de O capital , de Karl Marx, mostra que obra tem muito a dizer sobre o mundo de hoje

O capital, de Karl Marx (1818-1883), não é um livro fácil. Talvez seja até mesmo um dos mais complexos de seu tempo, pela soma de conhecimentos que traz, que exige um leitor informado sobre filosofia, história, economia e política, entre outras disciplinas. Além disso, ao inaugurar um campo do saber, faz uso de um método, a dialética, inspirada na filosofia de Hegel, mas com um foco definido na análise crítica do modo de produção de riqueza baseado no mercado. Em outras palavras: um novo objeto, uma nova ciência e um novo método. A isso se soma o volume da obra, que alcança milhares de páginas em quatro volumes, sendo que apenas no primeiro deles Marx pôs o ponto final.

Karl Marx by I Strawfish I

Karl Marx by I Strawfish I

O lançamento de uma nova edição de ‘O capital – Crítica da economia política’, com tradução feita diretamente do alemão por Rubens Enderle, é um passo fundamental no projeto da Editora Boitempo de trazer para o português as obras completas de Marx e Engels. Até agora já foram lançadas traduções de 16 títulos, entre eles dos clássicos A ideologia alemã e Grundrisse, mas com o primeiro volume da opus magnum do pensador, com quase 900 páginas, configura-se um nível de maturidade há muito exigido no âmbito dos estudos marxistas. Como se sabe, até mesmo por razões políticas, as traduções da obra de Marx foram feitas de forma assistemática, muitas vezes de segunda mão, e sem um projeto que abarcasse toda a produção teórica do filósofo.

O primeiro volume tem como subtítulo “O processo de produção do capital”. É obra que cobrou do autor muito tempo de estudo e até mesmo uma parcela de sua saúde. Marx havia se mudado para a Inglaterra em 1862, depois de várias transferências de cidade ocasionadas por sua militância política e na imprensa. No novo país, esperava não apenas aprofundar seus conhecimentos sobre o funcionamento do capitalismo mais avançado de seu tempo, como decifrar suas leis internas. A cena de Marx, afundado por horas seguidas em livros e relatórios no Museu Britânico, enquanto vivia a penúria doméstica, é clássica em todas as biografias. De lá saiu, em 1866, com o livro um finalizado. A primeira edição chegaria aos leitores em 1867, em Hamburgo. Os demais volumes, a partir dos manuscritos de Marx, seriam editados por Engels, depois da morte do amigo da vida inteira.

A edição da Boitempo é amparada ainda por três textos introdutórios, que se complementam. O primeiro é assinado por Jacob Gorender e faz uma apresentação da obra a partir de seus elementos mais significativos, como a gênese histórica, a definição de ‘O capital’ no âmbito das ciências sociais e uma análise da estrutura interna do livro. O texto seguinte, do filósofo francês Louis Althusser, retoma os argumentos do célebre Ler ‘O capital’, que marcou os estudos sobre Marx nos anos 1960, atentando para as principais dificuldades teóricas da leitura da obra. Por fim, em “Considerações sobre o método”, José Arthur Gianotti analisa a dimensão filosófica de ‘O capital’. Completam o volume prefácios das quatro primeira edições, cartas de Marx (uma delas inédita, dirigida a Vera Ivanovna Zasulitch, sobre a perspectiva do desenvolvimento na Rússia e a possibilidade da revolução no país), além de cronologia que interliga momentos da vida do autor com fatos políticos e culturais de seu tempo.

Tamanho esforço para levar o livro aos leitores contemporâneos evoca uma questão: ‘O capital’ ainda teria o que dizer ao mundo de hoje? Não se trata de pergunta retórica. Tantas vezes sepulta, a obra de Marx parece retornar em momentos de crise. Sempre que se levantam os coveiros da história, das ideologias e das utopias, a primeira vítima quase sempre é Marx, que ganha a caricatura de um homem de outro tempo, a teorizar sobre um sistema econômico que foi capaz de vencer todas as crises e derrubar todos os muros. No entanto, basta que a roda da história volte a girar, seja em protestos políticos ou crises reiteradas do capitalismo, com suas consequências cada vez mais reais e próximas, para que o pensamento marxista evidencie sua significação. Não se trata de dizer que Marx estava certo ou errado, mas que seu pensamento ainda ajuda a entender os problemas atuais.

Por isso, além da análise econômica e da criação do materialismo histórico, a obra de Marx avulta em força pelo estilo e argumentação. ‘O capital’, com seu sólido e intrincado edifício argumentativo e analítico, talvez não seja a mais palatável das obras marxistas, mas não deixa de trazer ao leitor determinado o prazer de encontrar a força da ironia e até mesmo as referências literárias clássicas, tão ao gosto do filósofo (que na juventude quis ser poeta). Além disso, algumas passagens parecem compostas a partir de personagens reais. Como destacou o americano Marshall Berman, em Aventuras no marxismo: “O que torna ‘O capital’ tão fascinante é que, mais do que qualquer outra coisa que Marx tenha escrito, o livro traz à tona sua visão da vida moderna como totalidade. Essa visão está espalhada sobre uma imensa tela: mais de mil páginas só no primeiro volume; centenas de personagens – mineiros e meeiros, donos de loja e donos de moinho, poetas e panfletistas, médicos e religiosos, pensadores e políticos, anônimos de mundialmente famosos – falando com voz própria”.

Esforço de leitura Mas é preciso também deixar claro que se trata de obra que exige estudo. No Brasil, ficaram conhecidos, a partir dos anos 1960, diversos seminários de leituras que atravessaram a década, em que o foco era a leitura de ‘O capital’, atentando para suas dimensões teóricas e práticas. Esse esforço de leitura – já que a obra tem seus momentos de aridez – gerou uma forte tradição de interpretação da obra de Marx, que se espalhou em diversos departamentos universitários. O que pode ser interpretado como vitalidade da academia, muitas vezes ganhou oposição ferrenha, sobretudo em razão de leituras por vezes ortodoxas demais e, em outros momentos, exageradamente marcadas pelo jargão de escolas concentradas em torno de pensadores com vocação para guru. Não se pode deixar de salientar os que, por idiossincrasia ou ideologia, “não leram e não gostaram” de ‘O capital’, considerado por eles um livro sobre equívocos, cuja leitura devia ser evitada. Esses, que Francisco de Oliveira chama de “sicofantas do liberalismo”, talvez tenham perdido boas chances de vestir a carapuça com os sarcasmos que Marx esparge em ‘O capital’.

Vencidas as 900 páginas do primeiro volume, o leitor certamente entenderá melhor o mundo em que vive. Mas o maior mérito do livro, independentemente da radiografia do modo de produção capitalista, talvez seja abrir os olhos para o pensamento marxista. Não no sentido de convencer as pessoas a se filiarem às hostes da esquerda, mas de alargar seu espírito para os demônios que habitam o cotidiano das relações alienadas e consumistas de nosso tempo. Muitos vão se surpreender com Marx. Um pensador que falava tanto da exploração do trabalho porque apostava que o melhor do homem era a poesia; que não perde tempo em apontar a sociedade perfeita (sua atenção era para a imperfeição do que via à sua volta); que se afundou nos estudos de economia exatamente para reduzir sua importância na vida da sociedade; que via no socialismo a continuidade da tradição de liberdade e conquista dos direitos civis. O próprio Marx, certa vez, afirmou que não era marxista.

O que o livro oferece ainda ao leitor é a abertura à posteridade criada por ele. Boa parte do pensamento social, cultural e político contemporâneo só é plenamente compreensível a partir da leitura de Marx e, entre suas obras, sobretudo de ‘O capital’. É desse monumento da inteligência humana que brotam a social-democracia europeia, as diversas experiências revolucionárias do século 20 (inclusive para se acercar de seus descaminhos), filosofias como a teoria crítica da Escola de Frankfurt, algumas correntes da psicanálise que analisam o papel repressor da cultura, os estudos culturais, os críticos da globalização e até aqueles que concordam com os defeitos do capitalismo, na vertente keynesiana, em tudo oposta ao marxismo.

Quem se aferrar nas profecias fanadas vai perder o melhor de Marx, como de resto de todos os pensadores. Os que, no entanto, vivem com a sensação de que “tudo que é sólido se desmancha no ar” podem encontrar um parceiro na pesquisa profunda das causas desse infeliz e tacanho modo de estar no mundo. Enquanto outro mundo possível não vem.

 

Fonte: Diário de Pernambuco


ocapital_site_alta

O CAPITAL

Crítica da economia política. Livro I: O processo de produção do capital
(Das Kapital: Kritik der politischen Ökonomie)
Karl Marx

Editora: Boitempo
Páginas: 856
Tradutor: Rubens Enderle
Ano: 2013

preços:
Brochura: R$ 98
Capa dura: R$ 139 (tiragem limitada)
E-book: R$ 49 (a partir de 1º de maio, preço a confirmar)

O avanço solitário do pensamento conservador

por Roberto Amaral

Retomo à questão das reformas estruturais, esfinge a desafiar nossos governos de centro-esquerda (por que não as fazemos?) e desafio ideológico a provocar as esquerdas brasileiras. Quanto a estas, a evidência é que, afogadas pela necessidade de vitória eleitoral, terminamos renunciando ao debate, abrindo, assim,  caminho para o avanço solitário do pensamento/ideário conservador.

handshake isolated on business background

O Brasil profundo, até 2012, vem votando na esquerda, ou mais precisamente em candidatos filiados a partidos programaticamente de esquerda, mas os ‘corações e mentes’ são conquistados pelo monopólio da direita impressa, com a demolição da política (de que depende a democracia) e da esperança, de que depende a esquerda. Um só dado: pesquisa em poder do TSE informa que 80% dos jovens brasileiros rejeitam a política, não crêem na política, muito menos nos partidos e nos políticos. A tragédia não diz respeito exclusivamente às esquerdas (embora sua responsabilidade seja dominante) mas a todos que defendem o processo democrático: tire-se da política a política, os partidos e os políticos, o que ficará de pé para dar sustentação à vida democrática?

Já vimos esse filme.

Para ganhar, a esquerda brasileira (e que dizer da francesa de hoje e seu lamentável Partido Socialista?) está convencida de que precisa ganhar setores à sua direita (o centro e a direita propriamente dita) e para ganhá-los torna-se bem comportada nas alianças eleitorais, no discurso, e no programa, o qual, mesmo tímido, é o primeiro a ser jogado de lado, pois no governo a abelha-rainha é a ‘governabilidade’. Para governar se impõem concessões, nas alianças que garantam tranquilidade parlamentar, nas composições políticas, necessárias, com o empresariado e o monopólio da informação (com quem precisa estabelecer um modus vivendi), os movimentos sociais e os sindicatos. Estes são levados à redução corporativa, ou seja, renunciam ao debate político – a vítima de sempre –, em benefício da estabilidade do governo que ajudaram a eleger e têm o dever histórico de sustentar.

Diz-se que essa tragédia política é filha natural do presidencialismo brasileiro, ao possibilitar eleições de quadros populares (Lula e Dilma) e ao, ao mesmo tempo, negar-lhes maioria parlamentar para governar e conservar-se no governo, cujo poder precisam partilhar com outras forças sem abrigo na soberania popular, a começar pelo famigerado ‘mercado’, com tudo o que lhe é implícito. A fragilidade parlamentar é contornada pela construção rentista (daí ‘presidencialismo de coalizão’) de maiorias heterodoxas, internamente contraditórias e conflitivas. Nas composições eleitorais, em prejuízo sempre da grande política, as coligações se fazem e se compram em função dos minutos que o partido agregado traz para a campanha eleitoral do candidato; no governo, a coalizão é determinada pelo número de parlamentares que podem ser arregimentados nas votações de interesse do governo. Collor não caiu por força de seus desmandos, mas, efetivamente, porque não dispunha de maioria congressual, quando perdeu o apoio da ruas. Lula, apoiado nas ruas, conheceu o risco da ausência de base congressual, em 2005, o que quase lhe impôs um impeachment. Corrigiu-se.

Por isso mesmo, tendo, pelo menos a partir do segundo governo Lula, maioria congressual suficiente para fazer as reformas estruturais, não as ousamos. Nem mesmo promovemos a institucionalização dos nossos programas sociais – Luz para todos, Minha casa minha vida, Bolsa Família, etc.— os quais, assim simples programas e não políticas de Estado (nível ao qual não são alçados) correm o risco de serem jogados na lata de lixo na primeira derrota eleitoral que soframos, alternativa que não desejamos mas para a qual precisamos estar atentos, pois conquistamos um governo republicano e não uma monarquia

Foto: Marcelo Träsel/Flickr

Ora, nossas eleições apenas se justificam – pelo menos esse deveria ser o sentimento coletivo— enquanto instrumento de reforma (isto mesmo, apenas reforma, ainda no âmbito da correlação de forças atual e sem abalar as bases do sistema) do Estado. Fora daí, a política fica reduzida a uma discussão despolitizada, inodora, em face de indices de eficiência administrativa, como se os feitos administrativos não tivessem alma e coração políticos e ideológicos.

A reforma do Estado brasileiro (ou sua simples modernização) se discute desde sempre, mas as transformações significativas se operam na transição da estrutura monárquica para a republicana, quando, numa aparente contradição, se consolida o poder rural-oligárquico, reacionário, anti-desenvolvimentista, ensejando a ditadura da política do ‘café com leite’.

A ‘revolução’, de 30, um conflito inter-oligárquico, se resolveu mediante sua negação, o golpe de 1937, que implantaria a ditadura Vargas. Assim é que, sob o autoritarismo, começaria a construção do moderno Estado brasileiro, tanto do ponto de vista político-social (a estruturação da ordem burocrática com o DASP, a legislação trabalhista e previdenciária etc.), quanto do ponto de vista econômico, criando a infraestrutura sobre a qual poderia o país, no seu capitalismo tardio, ingressar na industrialização, a promessa de nossa libertação de todas as amarras do subdesenvolvimento. São dessa época o Código de Águas, o Conselho Nacional do Petróleo, a Companhia Siderúrgica Nacional, a Justiça do Trabalho e a Consolidação das Leis do Trabalho.

A construção dessa base seria retomada no Segundo período Vargas, o democrático (1951-1954), de viés nacionalista, quando o Estado retoma o papel indutor do desenvolvimento. É dessa fase a Petrobras. Nenhuma reforma do Estado, porém.

A era Vargas, que o tucanato jurou enterrar, renasceria, tênue, no quinquênio JK (1956-1961) e o seu surto industrialista, dependente do capital estrangeiro. Nenhuma reforma estrutural, embora, e talvez seja essa a melhor herança do quinquênio, tenha o país descoberto que o subdesenvolvimento não era um determinismo, como ensinavam os pensadores do conservadorismo e do desenvolvimento nacional dependente dos interesses das grandes potências.

A questão das ‘reformas de base’ veio à tona, com todas as letras e as consequências conhecidas, no governo Goulart (1961-1964). Os pleitos de hoje são ecos do pleito de então: reforma agrária, reforma urbana, a reforma política, a reforma da educação…

A ditadura militar, de Costa e Silva em diante, retoma o projeto modernizante, mas seu objetivo era fortalecer o Estado conservador. A reforma política visa a sufocar a democracia, e a reforma da educação destrói a escola pública.

Os primeiro governos reformistas, após o fim do regime militar, seriam os dois períodos Lula, continuados por Dilma. Mas, não obstante sustentar-se em uma correlação de forças, a qual, ampla, amplíssima, e talvez por isso mesmo (pela sua heterogeneidade), não lhe assegura a realização de uma só das ‘reformas de base’ das quais ainda carecemos no terceiro milênio. Está por ser feita a reforma tributária, a primeira peça da real democratização de nosso país, como a reforma do judiciário, como a reforma política sem a qual a democracia representativa permanecerá como agora, uma promessa frustrada pelo controle do poder econômico e dos meios de comunicação de massa. Não se fez a reforma do ensino militar, que continua reproduzindo o pensamento de direita. Não se reviu o pacto federativo. Ou seja, o Estado da esquerda é, ainda, o Estado deixado pelos militares e aperfeiçoado em suas distorções perversas nos oito anos de FHC.

Aparentemente preocupadas tão-só com a ocupação burocrática do Estado, as esquerdas ficaram à direita dos governos que ajudaram a eleger, e, renunciando nossos partidos aos seus deveres como vanguarda, transformaram-se em instrumento de acomodação das massas, pela via da domesticação dos sindicatos.

Penso que este seria o debate que os partidos de esquerda deveriam, talvez até em conjunto, promover no vestibular das eleições de 2014, quando seremos julgados mais pelos nossos erros e omissões do que pelos nossos muitos méritos como gestores do Estado burguês.

 

Fonte: Carta Capital