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Literatura viral: a poesia brasileira nas redes sociais

Por Lucas Reis Gonçalves

benjamin-cardBenjamin, o cara que falava da internet antes mesmo dela existir

“Hoje todo mundo é poeta”, costuma dizer um amigo meu quando mostro pra ele o último poema que, até então, escrevi. E eu sempre concordo e completo: hoje todo mundo é poeta; todo mundo é crítico; todo mundo é fotógrafo; todo mundo é jornalista; todo mundo é tudo o tempo todo em todo o mundo. E tudo isso aos olhos de todo mundo, ou quase.

Não é novidade – nem pra mim, nem pro meu amigo, nem pro Benjamin, nem pra ninguém – que nós sofremos um processo de democratização cultural surpreendentemente complexo e, ao mesmo tempo, superficial. Nesse mundo cibernético onde a gente vive e do qual muitos já somos dependentes, as informações se (des)organizam em combinações interessantíssimas: num minuto estou lendo os 10 Melhores Poemas de Carlos Drummond de Andrade e, no seguinte, vendo a foto – em novo ângulo – da minha prima e as amigas dela no banheiro da festa Tal, que custou Tanto, com o DJ Tal. E essa é a democracia tão curiosa da rede social. É nessa nuvem virtual que eu, tu, o teu vizinho, a tua mulher, a tua sogra, o teu chefe, o papa e até os diferentes deuses dos diferentes povos podem se manifestar. E o mais intrigante: todos têm o seu público. Inclusive o cara que diz que não quer ter público acaba tendo o público que fecha com o cara que diz que não quer ter público. É assim: quem sai na chuva dessa nuvem virtual, é para se molhar – e de verdade.

Guardanapo-do-Eu-me-chamo-AntônioGuardanapo da página do facebook Eu me chamo Antônio.

A bola da vez são os meios. As nossas redes de comunicação antes eram baseadas, na sua maioria, em pequenos grupos dependentes de mídias sacralizadas, como o livro, a televisão, o filme, etc. Agora temos alternativas muito mais rápidas e frutíferas. E a culpada disso tudo é a internet. Toda essa abertura ao material consolidado até esse momento, ao material que está vindo e ao que ainda está por vir, somada à liberdade de troca das informações entre os indivíduos, coloca o cara que fala e o cara que ouve, o cara que escreve e o cara que lê em um mesmo plano de atuação com muitos outros caras que também falam, ouvem, escrevem e leem. É quase uma comunicação pura. Quase.

Mas é nesse ponto, no da escrita e da leitura em um novo âmbito de comunicação, que me detenho. Como se eu pudesse separar, sem dó, uma coisa da outra, eu começo pela escrita. Porque é ela, a escrita, um dos resultados mais recorrentes dessa geração enlouquecidamente produtora de conteúdo. E aí volto a falar: todos nós somos seres enlouquecidamente produtores de conteúdos. Eu nunca escrevi tanto, minha mãe nunca escreveu tanto, provavelmente a tua também nunca escreveu tanto e tão bonito quanto à última legenda daquela foto com passarinhos sobrevoando um Quixote que ela nunca conheceu, mas que é superbonita e vale a pena mostrar pra todas as amigas. E todos continuam escrevendo muito, e muitos deles, como diz meu amigo, são poetas. Alguns, poetas consolidados que querem se manter consolidados; outros, poetas que querem ser.

Poema-da-página-Um-milhão-690x514Poema da página do facebook Um milhão.

O Twitter, o Facebook, o Tumblr, o Instagram e outras plataformas similares funcionam como uma grande praça pública para cada um desses poetas. Insatisfeitos com a ingratidão do mercado, eles abandonam o livro impresso e partem para a criação voltada diretamente pra essas redes sociais. Uns buscam a promoção da sua escrita por conta própria, como o Fabrício Carpinejar e seus tuites “amorosos”; alguns vestem a roupa de um personagem fictício, como o Pedro Gabriel e o Eu me chamo Antônio; e outros – a grande maioria – participam de diferentes coletivos poéticos, um tipo de febre literária do Facebook. Esse é o caso de páginas do tipo Um milhão, Ex-estranhos, 946-Poesia e Filosofão – todas essas com a tendência quase involuntária de divulgar umas as outras. De parceria em parceria, se tornam coletâneas e best-sellers de poetas clássicos e iniciantes nessa nova estrutura editorial.

Poema-da-página-Ex-estranhos-490x690Poema da página do facebook Ex-estranhos.

Todos esses exemplos foram projetos que “funcionaram” nessa nova mídia literária. Bem ou mal, acabaram se tornando páginas lidas, curtidas e muito compartilhadas dentro e fora das redes sociais. É nessa hora que vemos (ou não) a resposta desse conteúdo todo: a leitura. Quanto a ela, feliz ou infelizmente, não há medida. É puramente baseada em números estatísticos quantitativos – o que não qualifica em nada uma determinada literatura. Mas isso não quer dizer que não renda frutos. Os textos de guardanapo do Eu me chamo Antônio, por exemplo, foram reunidos e publicados em  livro impresso pela editora Intrínseca – coisa que tem sido muito comum ultimamente: o fato de grandes editoras procurarem nas mídias virtuais o material para a próxima publicação.

Poema-da-página-Filosofão-530x690Poema da página do facebook Filosofão.

De qualquer forma, tá na cara que não faltam canais de circulação para a poesia nas redes sociais. Às vezes temos até mais canais que o próprio material. E aí, de novo, todo esse papo faz a gente lembrar o lado perverso da coisa. O nosso camarada Benjamin, quando se referia à banalização da obra de arte na era da reprodutibilidade técnica, já alertava: ela perde a sua aura, o seu valor único do aqui e agora e passa a ser um produto fabricado por uma massa e consumido por outra. E a poesia, por fim, deixa de lado o seu valor ritual, espiritual pra virar, automaticamente, prática política. Agora, se isso é ruim? Eu sei lá. Só sei que

Fim.

 

Fonte: Homo Literatus

Escritor baiano é indicado ao Prêmio Nobel de Literatura

Luiz-Alberto-de-Vianna-Moniz-BandeiraLuiz Alberto Moniz Bandeira (Imagem: Divulgação)

O escritor baiano Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira, de 78 anos, foi escolhido pela União Brasileira de Escritores (UBE) para representar o Brasil no Prêmio Nobel de Literatura. A Academia de Letras de Minas Gerais se mostrou favorável à escolha, e apoiou a decisão da UBE.

Autor de mais de 20 livros sobre temas diversos, entre os quais poesia e política, Moniz Bandeira mora na Alemanha, onde exerce o cargo de cônsul honorário do Brasil na cidade de Heidelberg.

Várias de suas obras são adotadas no curso de formação de diplomatas do Itamaraty, a exemplo de ‘Formação do Império Americano – Da guerra contra a Espanha à guerra no Iraque’.

 

Fonte: iBahia

Músicas de Adoniran e muita poesia estão na 10ª edição do “Sampoema”

Divulgacao_Caco_Pontes_Foto_Manoela_CardosoCaco Pontes (por Manoela Cardoso / divulgação)

A Casa das Rosas entra em clima de festa para comemorar o aniversário da cidade de São Paulo. No sábado, 25 de janeiro, o espaço recebe a 10ª edição do Sampoemas, evento que conta com contação de histórias, músicas de Adoniran Barbosa, show performático e muito mais. As atrações começam às 14h e se estendem até as 20h. A entrada é Catraca Livre.

Quem gosta de boa música pode acompanhar o “Jabá Sintético” que rola às 16h. O Conjunto João Rubinato apresenta uma seleção de canções pouco conhecidas do compositor paulista, temperadas com histórias pitorescas e de Adoniran.

Às 18h, Caco Pontes & Loop apresentam um show performático em homenagem a Roberto Piva. Para encerrar, ocorre um sarau de poesias, às 20h.

Confira abaixo a programação completa:

14h: Contação de história “São Paulo, minha cidade” – Com Marina Bastos

16h: Jabá Sintético: as músicas de Adoniran que a rádio não toca – Com Conjunto João Rubinato

18h: Show performático – Homenagem a Roberto Piva – Caco Pontes & Loop B

20h: Sarau Sampoemas – Com Frederico Barbosa

 

Fonte: Catraca Livre

‘Poesia Reunida’, de Lélia Coelho Frota, mostra autora com domínio do foco

Por LUIS DOLHNIKOFF

Poesia Reunida, da poeta carioca Lélia Coelho Frota (1938-2010), acaba de ser publicada em belíssima edição de capa dura pela Bem-te-vi, com prefácio de Heloísa Buarque de Hollanda e posfácio de Armando Freitas Filho.

LELIAFrota manteve uma produção poética prolífica durante décadas (1956-2006), concentrada neste volume. Normalmente, isto levaria este crítico a se atirar sobre algum poema exemplar, a fim de tentar mostrar ao leitor de que matéria poética se trata.

Mas sua extensa obra sugere outra abordagem ou oportunidade: a de também discutir, no pouco espaço aqui possível, a situação atual da poesia.

Sua poesia tem “qualidades” (entre aspas não por ironia, mas porque talvez insuficientes, como se verá). Além disso, seu lirismo, associado ao gênero feminino, parece agradar um pequeno público fiel, o que é algo a ser respeitado –principalmente no quadro atual de recepção de poesia.

Lembro do latino Horácio: “A poesia quer deleitar ou instruir”. E a poesia da autora parece “deleitar”. O problema está no “instruir”. Pois, a partir dos modernismos, os poetas se tornaram, para o bem e o mal, pesquisadores de sua linguagem, afastando o público médio na tentativa de se aproximar da vida contemporânea.

Poetas como Drummond, Cabral e Vinicius souberam, em seguida, incorporar as novas conquistas poéticas e recuperar o público perdido pelo primeiro modernismo. Então, houve as vanguardas dos anos 1950-60 (momentosas, mas pouco lidas pelo público não especializado) e, depois, o fim das vanguardas. Os próprios poetas perderam o rumo –o público também.

Mas certa memória da poesia pré-modernista persistia: a prova é Chico Xavier, o mais popular poeta do país. Seu Parnaso de além-túmulo, que “psicografa” poetas do passado, conta, em muitas reedições, com 100 mil exemplares vendidos.

A poesia de Frota ocupa lugar entre o puro passadismo desinformado do público popular de Xavier e o saudosismo apesar-da-informação de certo público urbano –que não quer ver na poesia um duro campo de teste da linguagem verbal, mas o doce lugar onde reencontrar a “expressão de sentimentos” conhecidos, em uma linguagem reconhecível:

“Sobre a mesa o relógio
anuncia meu tempo
que se desfaz em crivo
de aflito pensamento.
De que jardins me evado
de que amores provenho
de que enredo impreciso
se armara o que estou sendo…”
(pág. 71).

É poesia bem feita, de quem domina o ofício, mas que, apesar disso, nada anuncia de seu tempo.


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Poesia Reunida
1956-2006
Lélia Coelho Frota

Editora: Bem Te Vi
Quanto: R$ 120
(528 págs.)
Onde: Livraria Saraiva

 


 

Fonte: Folha de S. Paulo

Sérgio Alcides lançou nesta segunda-feira (26) seu terceiro volume de poemas

Sérgio Alcides   @  Imagem: Arquivo pessoal

O poeta e professor Sérgio Alcides é o convidado de hoje da série A nova literatura brasileira, do projeto Sempre um Papo. Também crítico literário, tradutor e ensaísta, com vários trabalhos na área da literatura, Alcides aproveita o encontro para lançar sua mais recente coletânea de poemas, ‘Píer’ (Editora 34).

Em seu terceiro volume de poemas, o escritor explora temas diversos, que vão da evocação ao mar, como em “Falta”: “Maré baixa. O píer não se precipita senão como o resíduo que vem dar na praia, memória do mar, areia raiada ainda pelas pegadas das águas em fuga”, a outros de tendência mais existencialista, como “Drama”: “Penso no meu futuro morto, que cresceu dentro de mim por tantos anos, comigo, e hoje espera paciente a minha despedida”.

Formado em comunicação social, Sérgio Alcides conta que chegou a trabalhar durante cinco anos como jornalista, antes de começar a dar aulas. Com o livro ‘Estes penhascos’, sobre o poeta inconfidente Cláudio Manuel da Costa, venceu dois prêmios importantes, o Minas de Cultura e o Cidade do Recife. Organizou ainda edição de ‘Eu e outras poesias’, de Augusto dos Anjos (Ática), e como tradutor verteu para o português textos de Ted Hughes, Juan Gelman, Joan Brossa e Philippe Jaccottet.

 


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Píer
Sérgio Alcides
Coleção Poesia
136 páginas
2012 – 1ª edição
apoio:
Programa Petrobras Cultural
onde comprar:
Editora 34


Comentário da Editora
Novo livro de poemas de Sérgio Alcides, Píer tem como cenário recorrente o litoral, a praia, a marinha. Muitos textos são compostos como se fossem paisagens, mas o “país” que eles retratam não se prende completamente a nenhuma geografia exterior à própria linguagem da poesia – onde a vida, a memória e a história se reordenam, transfiguradas. O conjunto inclui, além de números avulsos, três “suítes” de poemas: “Ossada”, “Píer” (iniciada quando o autor foi escritor-residente do Instituto Sacatar de Itaparica, em 2004) e “À margem do São Francisco”.

Segundo Newton Bignotto, a obra “revigora a poesia atual ao fundir em versos de rara beleza referências literárias, filosóficas e históricas com uma sensibilidade aguda para os desafios existenciais, que são de todos os tempos, e para as marcas de uma vida, que transcorre em terras, mares e cidades, que são de agora”.

 

Fonte: Divirta-se Uai

País da poesia

Foto: Włodi/ Wikimedia Commons

Além de extensa obra poética, o polonês Czesław Miłosz (1911-2004) deixou romances, memórias, correspondência e ensaios. Entre estes últimos, destaca-se O testemunho da poesia – seis conferências sobre as aflições de nosso século, de 1983, publicado recentemente pela editora da Universidade Federal do Paraná (UFPR). A tradução, direta do polonês, foi confiada a Marcelo Paiva de Souza, autor também da introdução e das notas que acompanham a edição. Doutor em Ciência da Literatura pela Universidade Jagielloński, em Cracóvia, Polônia, Marcelo ensina literatura polonesa na UFPR. Experiente tradutor e estudioso da tradução, já transpôs, entre outras obras, versos de Miłosz para o português. Nesta entrevista, ele destaca a importância da publicação de O testemunho da poesia no Brasil e aponta as razões pelas quais a Polônia pode ser considerada uma terra de poetas, o país da poesia.

sobreCultura+: O que o levou a traduzir O testemunho da poesia?
Marcelo Paiva de Souza: Em uma disciplina sobre tradução que ofereci na UFPR, propus aos alunos traduzir as conferências proferidas por Czesław Miłosz na Universidade Harvard em 1981-1982, quando ocupava a Cátedra de Poesia Charles Eliot Norton. Eles aceitaram o desafio. Miłosz ensinava literatura eslava na Universidade de Berkeley havia muitos anos e podia ter escrito as conferências em inglês. Mas preferiu fazê-lo em polonês e depois as traduziu para o inglês. À medida que a versão do inglês para o português evoluía, discutíamos as soluções dadas pelos alunos e as opções feitas pelo próprio autor traduzindo-se para o inglês. Acertada a publicação com a editora da UFPR, traduzi então o livro do polonês. Um título importante da obra ensaística de Miłosz se incorporou assim à língua portuguesa. Antes, já havia trabalhado em um projeto de tradução de seus poemas com um colega da Universidade de Brasília [UnB], Henryk Siewierski. Agora, tratava-se de dar a conhecer o ensaísta. Ambos são fascinantes e fundamentais. Miłosz é um autor capital do século 20, que precisa existir em português.

Czesław Miłosz @ foto: MDCarchives

Que obras de Miłosz estão à disposição do leitor em português?
Em traduções brasileiras de primeira mão, há a antologia Quatro poetas poloneses, preparada por Henryk Siewierski e José Santiago Naud, com poemas de Miłosz, Tadeusz Różewicz, Wisława Szymborska e Zbigniew Herbert, possivelmente os quatro poetas da Polônia de maior envergadura no século 20. É uma edição bilíngue, publicada em 1994, com texto introdutório dos organizadores. Mais tarde saiu a antologia de poemas de Miłosz organizada por mim e Siewierski na coleção ‘Poetas do Mundo’, da Editora UnB. Há aí um número pequeno, mas representativo, de versos do autor, precedidos por um estudo introdutório nosso. Para a revista Poesia Sempre – Polônia, da Biblioteca Nacional, foram coligidos textos de Quatro poetas poloneses e da antologia da UnB. Em Portugal há uma antologia de versos de Miłosz e Szymborska publicada em 2004. No âmbito da prosa de ficção, a Nova Fronteira publicou o romance O vale dos demônios, à época em que Miłosz recebeu o Nobel de Literatura. É uma tradução (bem feita, aliás) da edição inglesa do livro. Recentemente a editora Novo Século começou a publicar, também de segunda mão, obras do autor, como Mente cativa, outro título essencial de sua ensaística. O português é uma língua para a qual Miłosz está pouco traduzido, se compararmos com outras línguas importantes. O que há em português de sua poesia e de seus ensaios é ínfimo.

Quais os principais temas tratados por Miłosz nas conferências?
Em síntese, trata-se de um diagnóstico da poesia moderna feito por um profundo conhecedor de literatura e um grande poeta da Europa centro-oriental, região do mundo que, segundo ele, permite um ponto de vista muito próprio para o exame do assunto. Para fundamentar sua visão crítica do estado da poesia naquela época, Miłosz recua ao que chama de “matriz” da grande poesia moderna ocidental, sobretudo a francesa, com figuras como Baudelaire, Mallarmé e Rimbaud. Em seguida, indica o roteiro de constituição do moderno na poesia da Polônia e esboça um instigante panorama da produção poética do século 20 no país. A proximidade cultural entre a França e a 03864_otestemunho_dapoesiaPolônia era enorme, e o francês foi durante muito tempo a segunda língua do letrado polonês. A moderna poesia polonesa se constitui haurindo dessa fonte, mas ganha especificidade em razão, sobretudo, dos revezes históricos que se abatem sobre o país, particularmente no século 20. Por fim, Miłosz expõe uma concepção pessoal de poesia. A obra permite, portanto, que o leitor conheça Miłosz e, guiado por seu olhar, reflita sobre a poesia moderna, particularmente a polonesa.

Qual o impacto das conferências após sua publicação?
A publicação do livro foi saudada de imediato. Naturalmente, pois as conferências vinham no embalo do Nobel concedido a Miłosz em 1980. Outro dado relevante é a sanção institucional da Cátedra de Poesia Charles Eliot Norton. Alguém nessa posição está de posse de um alto-falante de extraordinário poder. Além disso, a situação política da Polônia à época – o país estava sob lei marcial, imposta pelo regime pró-soviético – acaba impulsionando a divulgação do livro. A voz de um intelectual dissidente ganhava naquele contexto grande ressonância política. Veículos especializados estampam resenhas, jornais noticiam a publicação. Em suma, o mundo culto ocidental reconhece o valor da obra. No entanto, essa primeira fase de recepção do livro o atrela talvez de modo excessivo às circunstâncias históricas de seu lançamento. Miłosz apoiava os movimentos de contestação na Polônia, seus poemas eram lidos em praça pública nas manifestações do Solidariedade. No quadro de polarização ideológica de então, o que se discerne n’O testemunho da poesia é antes de tudo a voz de um opositor do comunismo. Mas as questões que a obra põe em pauta hoje são outras.

Miłosz se diz um antimoderno. Como interpretar essa posição?
Interpretá-la de modo desavisado é um erro. Ele não se considera antimoderno em sentido absoluto; é antimoderno ao se contrapor a certa tradição moderna que, a seu ver, levou, em meados do século 20, a um depauperamento do fazer poético. Essa tradição é a que deriva de Mallarmé, da poesia simbolista, e que tem ainda outro nome tutelar no domínio francês, Paul Valéry. Estamos falando de uma poesia que investe em procedimentos de linguagem de alto grau de hermetismo, de rarefação do sentido, em que o objeto verbal é tomado como coisa autônoma, quase como um sucedâneo da religião. Esse é o moderno a que Miłosz se opõe. Há um ensaio seu, ‘Contra a poesia incompreensível’, que, por conter críticas à chamada poesia pura, causou considerável escândalo nos meios literários. Esse é um tema de que Miłosz tratou repetidas vezes. Aí está o porquê de sua reverência ao poeta norte-americano Walt Whitman, dono de uma poesia generosa na escuta do mundo. Miłosz admira essa característica em Whitman e não a vê na tradição que vem de Mallarmé, do simbolismo, e chega ao século 20. A poesia, segundo Miłosz, é um fazer compromissado com o mundo; ela tem que dizer o mundo. Quando começa a dizer apenas a si mesma, ela definha, perde o sumo vital.

Marcelo Paiva de Souza @ foto: Rosangela Meger

Miłosz admirava também o poeta inglês William Blake, não?
Nesse caso, há outro aspecto a considerar: o fato de Miłosz ter estudado a fundo o sistema metafísico que Blake erigiu em seu universo poético, ao tratar, entre outros temas, do lugar de deserção a que o homem foi condenado em razão das conquistas da ciência, da erosão do edifício das crenças religiosas, da perda da substância metafísica na existência humana. Como pensador da modernidade, Miłosz também se ocupa dessa questão. Daí Blake ter-se transformado em referência intelectual chave para ele. Mas aqui a afinidade se dá menos em termos de fazer poético e mais na perspectiva da problemática subjacente à obra de Blake.

Qual a relação da poesia de Miłosz com a chamada literatura de testemunho?
Miłosz repudiaria o rótulo, e é interessante entender por quê. Primeiro é preciso definir literatura de testemunho. Os textos assim chamados são aqueles em que se exorcizam traumas históricos como o Holocausto ou a experiência nos gulags soviéticos. O italiano Primo Levi e o romeno Paul Celan, que trataram do Holocausto, são figuras capitais dessa vertente, assim como o russo Alexander Soljenítsin, autor de Arquipélago Gulag. Isso seria testemunho em sentido estrito, e muitos escritores poloneses têm lugar de destaque nesse filão. Mas pode-se pensar nessa noção de modo amplo, entendendo por ela toda manifestação literária que expõe algum tipo extremo de violência em dado momento histórico. Há uma tradição latino-americana de literatura de testemunho, que trata de situações de desigualdade, exclusão e arbítrio na região. Então, considerar Miłosz um autor de literatura testemunhal é reduzir a uma única cifra um universo poético de imensa riqueza.

” Considerar Miłosz um autor de literatura testemunhal é reduzir a uma única cifra um universo poético de imensa riqueza. “

No Ocidente há certa tendência a vê-lo como escritor engajado, anticomunista. Mas essa é uma visão perigosamente estereotipada, aplicada a vários outros autores de qualidade, que têm também uma obra multifacetada. Miłosz a recusa porque não quer ver um universo poético complexo reduzido a uma só dimensão, por importante que seja. Mas é possível vê-lo como autor-testemunha de um tempo bem determinado: nos poemas que elaboram a experiência da guerra. Alguns desses textos são excepcionais, sobretudo os que tratam da questão do antissemitismo na Polônia. ‘Um pobre cristão olha para o gueto’, de 1943, é exemplar. A cena descrita é de destruição. Depois, vem, cavando um túnel através de uma espécie de cova coletiva, a figura misteriosa de uma toupeira, descrita como guardião de vulto semelhante ao de um patriarca do Velho Testamento, em clara referência à cultura judaica. O sujeito poético – judeu do Novo Testamento – se inclui entre os cadáveres e diz sentir medo: “Ele me contará entre os ajudantes da morte:/os não circuncidados.” Podemos falar aqui de literatura de testemunho naquele nível de grandeza que encontramos em Primo Levi ou Paul Celan. Mas, em Miłosz, isso é apenas a pontinha de uma galáxia.

Como vê a concessão do Nobel a Miłosz?
Quando concedido, o prêmio investe-se de poderosa carga política. Mas não se pode perder de vista que o laureado tinha àquela altura extensa folha corrida de serviços prestados à literatura. Então, desse ponto de vista, a situação é clara. Naquela conjuntura, porém, o Nobel veio reforçar o coro dos descontentes com o regime comunista. Essa fogueira foi instantaneamente alimentada pela premiação. Contudo, por mais que o prêmio tenha sido um elemento importante na arena ideológica de então, é inadmissível achar que Miłosz o recebeu exclusivamente por essa razão. Não se poderia prestar maior desserviço a um poeta dessa grandeza do que submetê-lo à bitola de ‘escritor que combateu o comunismo’. Infelizmente o Nobel naquele momento induziu esse tipo de leitura.

” A força de sua poesia foi um fator essencial para manter a identidade étnica e o espírito nacional. “

Por que a Polônia é considerada uma terra de poetas, o país da poesia?
No campo das artes, o teatro também se destaca na Polônia. Para ficar só em dois nomes, cito Tadeusz Kantor e Jerzy Grotowski, figuras estelares da cena de vanguarda do século 20. Mas a riqueza da poesia polonesa é impressionante. Algo que talvez explique isso é o longo curso da tradição histórica do fazer poético polonês. No Renascimento, já havia um Jan Kochanowski, em pé de igualdade com os grandes poetas de seu tempo no mundo ocidental. Formou-se nos centros de saber humanístico da Itália e tinha profundo conhecimento de literaturas antigas. Escrevia em latim, mas produziu também em polonês. Já na formação da poesia polonesa inaugurou-se assim uma linhagem diante da qual cada novo praticante da arte do verso teria que lutar para manter o nível fixado por aquele pai fundador. Ao cabo de séculos, o resultado é um panorama poético de potência incomum. Outro dado significativo são as vicissitudes históricas. Perdendo a liberdade no fim do século 18, invadida por potências inimigas (os impérios russo, austro-húngaro e prussiano), a Polônia deixa de existir como Estado, mas persiste como nação. E a força de sua poesia foi um fator essencial para manter a identidade étnica e o espírito nacional. Recuperada a independência no início do século 20, pouco depois o país vive outro trauma: a Segunda Guerra. A poesia feita sob tais cataclismos será necessariamente diferenciada.

Por que o romance polonês ficou como que à sombra da poesia?
Razões históricas também ajudam a explicar isso. No século 19, período de enorme pujança do romance europeu, a Polônia estava sob rigorosa censura de invasores e enfrentava políticas de combate à nacionalidade. Isso comprometeu seriamente a criação de romances, cuja produção requer um aparato institucional complexo: no mínimo jornais, para que sejam publicados em folhetim, e editoras, para saírem como livro. Num quadro de opressão estrangeira, como o romance se desenvolveria? Com a poesia é diferente. Escrito o poema, ele está nas ruas. O que não significa que na prosa de ficção não haja obras de qualidade. Aliás, já temos algo dessa produção em boas traduções para o português. Henryk Siewierski, por exemplo, é responsável pela divulgação de Bruno Schulz no Brasil, um dos grandes nomes da narrativa polonesa do século 20. E há diversos outros. Agora, com um curso de Letras/Polonês na UFPR, quem sabe não tardem a entrar em circulação entre nós…

 

Fonte: Ciência Hoje