literatura

Castração e misoginia ligam mulher à literatura

Por Ligia Braslauskas

reWalls.com_1068Imagem: Getty Images

Poderia usar este espaço hoje para falar de nomes femininos conhecidos da literatura brasileira e mundial, mas isso todo mundo já vai fazer, faz-se todo ano no Dia Internacional da Mulher. É só dar uma “googada”.

Então preferi falar de duas histórias interessantes de escritoras menos populares, mas não menos importantes.

Um dos nomes é Héloïse du Paraclet.

Essa parisiense viveu entre 1101 e 1164. Era extremamente culta. Com 17 anos, já sabia latim, grego, hebraico, teologia e filosofia.

Mulher de personalidade forte, Héloïse se apaixonou por seu professor Abélard, casaram-se e tiveram um filho. Só que o tio de Héloïse não aceitava a relação dos dois e mandou castrar Abélard como vingança.

Isso inspirou Héloïse a escrever ainda mais.

“Castrados”, eles viraram religiosos e se enclausuraram. Toda a obra literária de Héloïse está baseada nas cartas que enviava a Abélard. Puro amor, pura literatura. Essa mulher é considerada, simplesmente, a primeira mulher das letras do mundo ocidental.

É preciso lembrar sempre quão difícil foi o papel da mulher na história da literatura, campo historicamente dominado pelos homens.

Chegou-se a dizer que as mulheres eram incapazes de cuidar de si próprias, que tinham uma natureza perigosa e inteligência inferior. Parece mentira, mas, infelizmente, não é.

A sociedade educava as mulheres para papéis eminentemente passivos: casamento, gestação, parto, amamentação.

Procurar um marido? Jamais. Elas eram buscadas. Imagine dizer que escreviam?

Para encerrar aqui, falaremos da italiana Christine de Pisan (1364-1430). Já ouviu falar dela?

Pois bem, ela é tida como a primeira mulher na literatura ocidental a ganhar a vida com sua escrita. Suas palavras abordavam a misoginia e o direito de igualdade entre homens e mulheres.

Christine casou-se com 15 anos. Teve três filhos e perdeu o pai e o marido aos 25. Sem pai e sem marido lhe foi permitido ganhar dinheiro com literatura.

Como se tudo isso não bastasse para admirá-la, há o fato de ser dela a autoria do único texto conhecido de língua francesa sobre Joana d’Arc (1412-1431), enquanto esta era viva – Le Ditié de Jehanne d’Arc – A Balada de Joana D’Arc.

 

Fonte: R7 │ Blog Literatura por Ligia Braslaukas

Literatura russa conquista livrarias do Brasil

catedral-de-sao-basilio-russia(Imagem: fondospedia.com)

Recordando o grandioso aniversário da Universidade de São Paulo (USP), que fez 80 anos em 25 de janeiro, é grato falar do papel que este grande centro desempenha na área da divulgação da cultura russa e no intercâmbio cultural e científico entre os dois países. Eis aqui um exemplo dos mais recentes: em outubro de 2013, foi assinado um acordo de parceria entre a universidade russa Escola Superior de Economia e a USP. Já existe parceria entre a USP, especialmente o Departamento de Línguas Orientais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Sociais, a FFLCH, e a Universidade Estatal de Moscou Lomonosov, a MGU, e também a Universidade de Humanidades, a Universidade de Estudos Humanitários da Rússia, a RGGU, Universidade Politécnica de São Petersburgo, o Instituto de Literatura Russa Pushkin de São Petersburgo e a Universidade de Nizhny Novgorod. Além disso, há um pouco mais de dois anos, foi criado o LERUSS – Laboratório de Estudos Russos, resultado de um convênio firmado com a Fundação Russky Mir.

Segundo Elena Vassina, professora das Letras Russas da FFLCH, o “boom” começou em 2001 com a exposição “500 anos da arte russa”, que ocorreu em São Paulo, e teve como consequência o crescimento exponencial do interesse pela cultura russa:

“Eu comecei a trabalhar na Universidade de São Paulo, a USP, em 1999. Mas a primeira vez que eu dei um curso na USP, foi em 1993. Nos anos 1990, o interesse pela Rússia e pela literatura russa em particular, era, digamos, mínimo. Além de Boris Schnaiderman, fundador do nosso departamento, Paulo Bezerra, Aurora Fornoni Bernardini, quase ninguém se ocupava, não traduzia e não se interessava pela literatura russa. Por exemplo, quando eu acabava de ingressar na USP, tive no meu grupo 3 alunos. Agora, nos grupos de 1º ano, tenho 50-55 alunos. Esse “boom” dos estudos russos no geral, da Rússia e da literatura russa, começou mais ou menos a partir de 2000. Para sermos mais precisos, após 2002—2003, há dez anos. Tinha uma exposição excelente em 2001, “500 anos da arte russa”, que exerceu um papel muito importante para crescimento do interesse à Rússia. E as editoras, já que isso se tornou uma ocupação bastante rendível, meteram-se a traduzir e publicar literatura russa. De maneira que, ao entrar numa livraria em São Paulo, a primeira coisa que você vê são grandes vitrines e stands com clássicos russos.”

Assim, constatamos que a literatura russa é um elemento importante das relações internacionais. Faz parte, contudo, de um amplo elenco de instrumentos e fatores, partilhando espaço cultural com o cinema e o teatro. Os festivais do cinema russo no Brasil e do cinema brasileiro na Rússia organizados há vários anos, são já uma tradição. Porém, a literatura ocupa o primeiro lugar, destaca Elena Vassina:

“Eu comparo esse interesse pela literatura russa com uma novena onda. Quando no Brasil me perguntam de que nacionalidade eu sou, e eu respondo que sou russa, a primeira associação é esta: “Oh! Dostoievski!” Porque aqui, todo o mundo lê Dostoievski. E felizmente, agora, na Editora 34, Paulo Bezerra traduziu todos os quatro romances principais de Dostoievski, que aparecem pela primeira vez traduzidos diretamente do russo, e devo admitir que traduzidos brilhantemente. Eu acho que a literatura clássica russa é uma enorme riqueza, é algo que é muito grato divulgar no Brasil. É ótimo que o interesse pela Rússia cresça e se nutra da literatura clássica russa”.

Hoje, a literatura russa no Brasil é cada vez mais divulgada. Os clássicos russos são um item importante das vendas das editoras, e o leitor procura esses livros, segundo dados das próprias editoras. Para rematar, as novas edições que surgem, quase obrigatoriamente abordam um autor russo, diz Elena Vassina:

“A verdade é que praticamente todas as grandes editoras do Brasil querem publicar literatura russa porque se vende bem. Eu acabo de ver um livro de Ivan Bunin, editado pela editora Manole, cujos contos traduziu uma mestranda minha. A editora Leya publicou traduções de Klara Gurianova (o livro de Pavel Bassinski sobre Lev Tolstoi). Eu trabalhei com outra mestranda minha com as traduções de ensaios artigos de Tolstoi, publicadas num volume editado pela Companhia das Letras, também uma editora magnífica. Eu nem lembro todas as editoras com que trabalhei traduzindo e editando prefácios sobre a literatura russa. Agora acaba de surgir uma nova editora, Rafael Coppetti, que, claro, quer editar algo russo, e eu estou preparando uma coletânea de artigos sobre Tolstoi. O livro deve aparecer na primeira metade de 2014. Outro projeto legal é a editora Ateliê. Recentemente editaram “Contos da Cartilha” de Tolstoi, ilustrados por alunos da Escola juvenil das artes da cidade russa de Izhevsk. É um projeto de Aurora Bernardini. O livro foi um êxito, porém, passou muito tempo no prelo. Afinal editaram, e agora eu devo partir para Izhevsk para apresentar o livro e visitar as crianças que tinham 6-12 anos naquela altura”.

Cabe indicar que São Paulo possui o único departamento de russo em toda a América Latina que tem mestrado e doutorado. Se fala de toda uma escola de tradução. Arlete Cavaliere, professora da área do russo da USP e tradutora ela mesma, afirma:

“A literatura e a cultura russas estão muito difundidas hoje no Brasil, pois o interesse pelo universo cultural russo já está consolidado entre nós há muitas décadas. E como já existe um grupo consagrado de tradutores e especialistas brasileiros de literatura russa, a maioria deles oriunda da Universidade de São Paulo, as editoras brasileiras, interessadas em difundir a literatura russa, têm procurado regularmente esses tradutores e especialistas para efetivar projetos de tradução de textos de autores russos representativos. Penso que conjugar a pesquisa acadêmica produzida na Universidade com a divulgação dessa mesma pesquisa, por meio de editoras brasileiras representativas, constitui o melhor caminho de fazer chegar ao leitor brasileiro textos literários russos traduzidos com qualidade e rigor, o que, certamente, despertará em nossos leitores um interesse cada vez maior.”

A professora Arlete tem estado várias vezes na Rússia. Em 2010 e 2012, ela participou das duas edições do Congresso de Tradutores em Moscou, um dos maiores eventos internacionais dedicados à literatura e cultura russa no mundo. Arlete Cavaliere é quem fez o público leitor brasileiro conhecer escritores tão importantes como Nikolai Gogol e Vladimir Mayakovsky. Perguntada sobre as suas preferências literárias como tradutora, responde o seguinte:

“Na verdade, tenho preferência por todos aqueles que traduzi, pois, certamente, são sempre escolhas de cunho muito pessoal. Traduzir Gogol foi uma ousadia, um risco, mas também uma grande aventura. Posso dizer o mesmo de Mayakovsky, Tchekhov, Bunin… enfim, é difícil estabelecer uma preferência. Até mesmo traduzir os textos teóricos do encenador russo de vanguarda Vsevolod Meyerhold levou-me a um contacto extraordinário com um universo cultural russo muito surpreendente, aquele das intempestivas vanguardas russas do início do século XX”.

Os autores russos contemporâneos também são editados, diz a professora Arlete:

“Temos já disponíveis em língua portuguesa do Brasil muitos textos fundamentais da literatura russa em traduções excelentes, muito bem editadas. Sem dúvida, a literatura russa clássica está mais difundida do que a contemporânea, embora tenhamos já projetos para a tradução de muitos dos textos dessa última em andamento. Muitos autores importantes, que marcam, por exemplo, o assim chamado pós-modernismo russo poderiam ser ainda mais traduzidos, como, por exemplo, Vladimir Sorokin, Viktor Pelevin, Ludmila Petrushevskaya, Tatiana Tolstaya e tantos outros”.

Um livro não consiste só do texto do autor cujo nome figura na capa. Há elementos proporcionados pela equipe editora. E os responsáveis pela publicação ajudam para fazer um livro excelente, sublinha a senhora Cavaliere:

“Só posso elogiar os editores com os quais tenho trabalho para a publicação de meus livros. Tenho tido muita felicidade em estabelecer e concretizar projetos com editores sensíveis, inteligentes, que não apenas editam, mas colaboram para o aprimoramento dos textos, dando sugestões e muitas vezes propondo notas e comentários, que só enriquecem o meu trabalho. Penso ser fundamental trabalhar com editores que, antes de mais nada, amam a literatura e a cultura russas”.

Uma das editoras mais conhecidas no Brasil, a Editora 34, dará neste ano uma continuação considerável à sua Coleção Leste, projeto dedicado à literatura russa. Segundo o editor da Coleção, Cide Piquet, há vários títulos, entre eles dois inéditos proeminentes. São “Contos de Kolyma” de Varlam Shalamov, traduzidos por Denise Sales, Elena Vassilevich, Lucas Simone, Cecília Rosas, Marina Tenório e Nivaldo dos Santos, e “A Escavação”, de Andrei Platonov, tradução de Mário Francisco Ramos (brasileiro, professor de literatura russa na USP) e Yulia Mikaelyan (russa, tradutora e professora, hoje vivendo no Brasil).

 

Fonte: Rádio Voz da Rússia

Escritor baiano é indicado ao Prêmio Nobel de Literatura

Luiz-Alberto-de-Vianna-Moniz-BandeiraLuiz Alberto Moniz Bandeira (Imagem: Divulgação)

O escritor baiano Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira, de 78 anos, foi escolhido pela União Brasileira de Escritores (UBE) para representar o Brasil no Prêmio Nobel de Literatura. A Academia de Letras de Minas Gerais se mostrou favorável à escolha, e apoiou a decisão da UBE.

Autor de mais de 20 livros sobre temas diversos, entre os quais poesia e política, Moniz Bandeira mora na Alemanha, onde exerce o cargo de cônsul honorário do Brasil na cidade de Heidelberg.

Várias de suas obras são adotadas no curso de formação de diplomatas do Itamaraty, a exemplo de ‘Formação do Império Americano – Da guerra contra a Espanha à guerra no Iraque’.

 

Fonte: iBahia

Flipside começou dia 4 de outubro com homenagem a Tom e Vinicius

2013-651322699-2013100223951_20131002.jpgGLOBO(Foto: Terceiro / Divulgação/John Christie)

Snape Maltings, cidadezinha da Inglaterra, tinha pouco a ver com Paraty, no Rio de Janeiro. Aquela era bem mais fria, enquanto esta tem ares tropicais. A única semelhança era o fato de ambas ficarem perto do mar e da foz de um rio. Agora, elas ficam mais parecidas. Snape Maltings recebe, de sexta-feira (04) até domingo, a versão inglesa da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip): a FlipSide, que vai homenagear Vinicius de Moraes e Tom Jobim.

— Começamos a FlipSide pensando nos mesmos princípios que nortearam a criação da Flip, em 2003: divulgar a literatura e a cultura brasileiras fora do Brasil — diz Liz Calder, idealizadora das duas festas literárias. — A Flipside é uma continuação dessa ideia, que já mostra resultados. É um processo lento, porque as traduções demoram, mas, gradualmente, os autores brasileiros estão ficando mais conhecidos.

Como sua irmã brasileira, a festa inglesa começa com um show. José Miguel Wisnik, Paula Morelenbaum e Arthur Nestrovski homenageiam Tom e Vinicius no show “Os garotos de Ipanema”. Como prova de que não quer divulgar apenas a literatura brasileira, haverá ainda demonstrações de forró, workshops de capoeira — todos promovidos pelo grupo inglês Urban Ritual — e literatura de cordel. Uma mostra do artista britânico Ron King, com esculturas de cangaceiros, ocorre paralelamente.

Traduções à venda

Para promover o encontro de autores daqui e de lá, a festa já começa com dois grandes nomes: o brasileiro Milton Hatoum e o britânico Ian McEwan discutem as diferenças entre as tradições literárias de seus países. Depois da dupla, uma mesa reúne as escritoras brasileiras Ana Maria Machado e Patrícia Melo com o autor britânico Misha Glenny, que trabalha em um livro sobre o Brasil. Em seguida, o encontro é de Bernardo Carvalho e Will Self. O dia será encerrado com um show de Adriana Calcanhotto.

— Nem todos os convidados brasileiros foram traduzidos no Reino Unido, mas esse foi um dos critérios. Vamos ter uma ótima livraria vendendo traduções de autores do Brasil para quem quiser comprá-los depois dos debates — afirma Liz.

Pensando nisso, a editora Full Circle, que tem Liz como uma das sócias, vai lançar no evento a coletânea “Other carnivals — News stories from Brazil”, que, organizada por Ángel Gurria-Quintana, reúne contos de autores como Milton Hatoum, Bernardo Carvalho, Cristovão Tezza e Andréa Del Fuego.

A FlipSide vai vender caipirinhas e pratos de feijoada para quem quiser experimentar. Também haverá uma mesa com o ensaísta José Miguel Wisnik, colunista do GLOBO, e o jornalista Alex Bellos sobre futebol. Não para reforçar clichês, mas para deixar a cidadezinha mais parecida com o Brasil.

 

Fonte: Extra

‘A mente humana é preguiçosa’, diz psicólogo

puede-la-mente-humana-quedarse-sin-memoriaImagem: Divulgação

Mudanças costumam gerar estresse e ansiedade. A passagem de um estágio a outro implica em encarar o desconhecido, provoca a desorganização de um sistema de hábitos que fundamentam uma falsa segurança nas relações, no dia a dia. No fim, pensamos, é melhor ficar como está.

“A mente humana é preguiçosa”, diz o psicólogo Walter Riso. “Ela se autoperpetua, é levada por seu parecer e tem uma alta propensão ao autoengano”.

Em Pensar Bem, Sentir-se Bem, Riso defende que nossa mente cria armadilhas de autossabotagem e que a maioria de nossos problemas são ilusões que se originam em ideias pré-concebidas.

Segundo o autor, a mente “busca sobreviver a qualquer custo, mesmo se o preço for se manter na mais absurda irracionalidade”. Por isso, uma pessoa é capaz de evitar um relacionamento afetivo por medo de ser magoada num futuro imaginário.

Ainda assim, ressalta Riso, duas emoções contraditórias –medo e curiosidade– incentivam e freiam os impulsos humanos. Revisar e abandonar crenças requer mais coragem do que se imagina.

“As teorias ou as crenças que elaboramos durante toda a vida sobre nós mesmos, sobre o mundo e sobre o futuro se aderem a nossa psique, mimetizam-se como todo o fundo informacional, e as transformamos e verdades absolutas”, conta.

Riso, que também assina “Manual para não Morrer de Amor”, “Amar ou Depender?”, “Amores de Alto Risco” e “O que Toda Mulher Deve Saber Sobre os Homens”, é terapeuta e professor universitário.

 


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Pensar Bem, Sentir-se Bem

Autor: Walter Riso
Editora: Academia
Páginas: 240
Quanto: R$ 19,90
Onde comprarLivraria da Folha


 

Fonte: Folha de S. Paulo

Eu sou o melhor no que faço, mas o que faço não é nada bonito

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Meu pai me chama de Wolverine. É o nosso apelido secreto.

Não tenho o queixo quadrado e a baixa estatura do desenho da Marvel Comics. Muito menos a suíça e o cabelo alvoroçado do ator Hugh Jackman, que interpreta o herói no cinema. A referência física não contribui para nossas semelhanças.

Ele me compara ao personagem pelo meu alto poder de cicatrização. Eu me desespero e logo ressuscito, eu caio e logo levanto.

Não morro de uma única vez. Não desisto. Não me entrego mesmo que não veja a saída. Quando não há porta, eu espero no escuro até ser a porta.

A ansiedade que me enerva acaba por aumentar minha vontade de ver de novo a luz.

Tenho fúria de viver.

Não há perda que seja total. Alguém pode me machucar terrivelmente, mas não me leva. Posso permanecer sequelado, mas sei cavar a terra por dentro da terra. Penso nos filhos, penso nos amigos, penso na literatura e sigo adiante. Cambalear ainda é caminhar. A chuva lava minha ferida e o vento seca.

A carne da memória se recompõe de algum jeito. Talvez seja um excesso de sofrimento na infância que me preparou para o pior no futuro.

Eu sobrevivi a tanta coisa.

Sobrevivi ao bullying na escola, ao pessoal me chamando de ET e monstro todo dia durante o ensino fundamental.

Sobrevivi à resistência dos médicos que juravam que tinha algum retardo mental.

Sobrevivi à desistência dos professores com meu desempenho.
Sobrevivi à traição de amigos.
Sobrevivi às drogas para ser aceito na roda dos adultos.
Sobrevivi à briga de rua.
Sobrevivi a uma tentativa de suicídio na adolescência.
Sobrevivi a enterros de jovens amigos.

Sobrevivi a três acidentes de carro.
Sobrevivi a três separações.
Sobrevivi ao vício do cigarro.
Sobrevivi a dois assaltos a mão armada.
Sobrevivi a várias demissões.
Sobrevivi ao distanciamento de meus dois irmãos amados.

Sobrevivi, vou sobreviver, mesmo que não acredite na hora.

Só não entendia onde meu pai enxergava as garras retráteis de Logan.

– E as garras das mãos, pai?

– São as palavras, meu filho. Você se defende com a linguagem ou se agarra nela para não morrer.

 

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Publicado no jornal
Zero Hora

Coluna semanal,
Revista Donna, p. 6
Porto Alegre (RS)
04/08/2013
Edição N° 17512

 

 

Fonte: Blog Fabrício Carpinejar