Arte

O conceito e a fotografia

ContextoC_07Jorge Fuembuena: #02. Serie Crash

Jesús Micó falou. E quando um teórico deste tamanho fala, nós temos que escutar, ainda que não diga nada de novo.

Mas ele falou tão bem que o universo fotográfico balançou.

Jesus disse que, para selecionar uma obra para a exposição “Kursala“, é preciso juntar “a qualidade estética ou formal e relativa à ideia e aos conteúdos do projeto, o que vem a se denominar o conceito.

Mas o que ocorre quando um trabalho não contém “a excelência visual e conceitual”, como deve ser?
E quando o conceito é excelente e as fotos parecem uma merda?

Ou vice-versa: quando há uma poesia e originalidade nas imagens, mas elas não contam NADA (silêncio).

O que o fotógrafo pode fazer ante a esta descompensação fatal? Como pode se fazer escutar com tamanha contradição?

Nestes casos, propomos aprofundar o discurso justificador. Recomendamos que, assim como quando você aprende uma língua, o fotógrafo em treinamento vá utilizando um vocabulário conceitual básico.

Porque a fotografia, ainda que seja uma linguagem visual, precisa hoje, mais do que nunca, de um vocabulário esclarecedor para não ser incompreendido.

Portanto, se a citada descompensação é o seu problema e você não tem ideia de como mostrá-la para o público, o que você tem que fazer é dotar o seu trabalho (projeto, como dizem agora, como se sempre estivesse inacabado), seja do formato que for (livro, exposição, portfolio…), de um texto introdutório para conceituar adequadamente a sua fotografia, que dê corpo, que dê a sensação que falta.

E vamos começar bem: introdutório.

Porque é preciso insistir que esta seja a primeira coisa a chamar a atenção do espectador em vez das fotos. Trata-se de bombardeá-lo com um vocabulário portentoso que faça sentir que a ideia e fotos são muito poderosas, ainda que elas não transmitam nem contem NADA (novo silêncio).

Se as imagens se calam, fale você por elas!

Há uma exposição em Madri, na Tabacalera, em que você pode melhorar muito o seu léxico fotográfico: “Contexto Crítico”. Uma mistura que reúne o que há de mais emergente na fotografia espanhola.

Faltam poucos dias para encerrar. Visite! Antes de ir, não esqueça o seu caderno de anotações e de tomar algo para dor de cabeça.

Vamos nos concentrar nas placas da exposição, porque elas são ouro moído.

Muitas delas poderiam ser resumidas em um ou dois parágrafos curtos, mas os autores não pouparam palavras e, generosamente, nos deram complexas e esclarecedoras explicações.

O efeito narcótico das palavras é instantâneo, ajudado pela iluminação suave e a magia do edifício: o espectador antes de começar a ver a primeira imagem já está imerso em um deslumbre semelhante ao de Sthendal, que faz você acreditar que o que vê é leite.

Ángel Luis González, diretor da PhotoIreland, resumiu sua visita à exposição da seguinte forma: “Espaço: 10 pontos. Trabalhos: 7. Textos: terríveis!”

Mas não, Angél erra. O que parece verborrágico, barroco e redundante são apenas tentativas bem sucedidas para que o conceito permaneça transparente.

Vou ser gente fina com vocês e economizar trabalho.

Selecionei oito dos 20 autores da mostra (Guerrero, Paula Anta, Ali Hanoon, Salván, Tornero, Jesus Madriñán, Vanessa Pastor e Anna Huix). E com eles, algumas palavras e expressões usadas.

Você vai ver como caem bem para seu propósito. Algumas delas se repetem, pois são palavras totêmicas. Coloque-as, mesmo que seja para encaixar na teorização do seu projeto, pois vai te dar sorte, você ficará mais perto do sucesso. Tome nota:

Projeto, síntese, olhar, estudo, busca, proposta, imaginário (coletivo), surgir, interagir, aprofundar, work in progress, ficar, entorno (pessoal), periferia, ausência, presença, conceito, identidade, honesto, subjacer, fragmentos de realidade, efêmero, eterno, explorar, memória (coletiva), esquecimento, referências, visão poliédrica e transversal, recorrido, paraísos artificiais, realidade mutante/dual, ética conjectural, dócil e dominado, traços do passado, transformação, catalisador global, interstícios, silenciosa e tranquila, calma e serenidade, binômio equidistante entre conflito, justaposição, materialização, imprevisto, abordagem intuitiva, atmosferas, articular, subversão, construção da identidade, contradição, magnetismo, discordância, simbiótica, inacabado …

Como exemplo, vamos utilizar as fotos de Alec Soth.

Não são trabalhos completos, mas valerão para demonstrar que estas palavras são um excelente recurso para articular o conceito.

a-sothFotos: Alec Soth

Veja como o texto pode ser válido para ambas as imagens:

“Esta mulher parece questionar sua identidade. Sua presença se torna efêmera. Ausente em uma realidade mutante, subjace em um entorno onde não se pode interagir, em um binômio equidistante, mas em contínuo conflito entre os traços do passado e um imaginário paraíso artificial. Mas seu olhar é honesto, eterno. E segue silenciosa e tranquila, com calma e serenidade, numa eterna busca por referências. Segue explorando e aprofundando com intuitiva aproximação em seu work in progress.”

Texto extraído do blog espanhol Cienojetes.

 

Fonte: Entretempos │ Folha de S. Paulo

Saramago grafitado

Por Paula Patricio

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Gosto de graffitis. Dos bons. Daqueles que são arte e não uns simples rabiscos prejudiciais ao bom gosto dos verdadeiros graffiters. Gosto de fotografá-los, pois são umas efémeras obras de arte e há que imortalizá-las antes que alguém se lembre que os graffiti não são arte e lance um balde de tinta por cima ou até mesmo antes que o passar do tempo os destrua lentamente.

Num dos meus passeios por Lisboa, não quis deixar de imortalizar os graffitis de José Saramago que podemos encontrar junto ao Campo das Cebolas, mesmo próximo da Fundação do nosso Nobel da Literatura.

Já tinha passado por lá umas quantas vezes, mas nunca tinha tido a oportunidade (ou o tempo) para parar e deliciar-me com a qualidade dos graffitis. Naquele dia, felizmente, tinha a minha máquina fotográfica comigo e então parei e fotografei.

Antes que o tempo os apague e, como podem ver nas fotografias abaixo, o tempo está a apagá-los, perpetuemo-los.

 

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Fonte: Revista Biografia

Laure Prouvost leva o prêmio Turner 2013

Laure-Prouvost3A artista francesa Laure Prouvost (Imagem: Divulgação)

Surpreendendo a maioria dos críticos de arte do Reino Unido, a francesa Laure Prouvost, especialista em vídeos e obras multimídia, venceu, na tarde desta segunda-feira, o prêmio Turner 2013, outorgado pela Tate Gallery e considerado um dos mais importantes galardões do mundo das artes visuais.

Com 35 anos e residente em Londres há mais de 15, Laure derrotou os britânicos David Shrigley, Tino Sehgal e Lynette Yiadom-Boakye e, agora, embolsará 25 mil libras. Até chegar ao veredicto da noite, o júri demorou nada menos do que três horas, comprovando a difícil disputa travada entre os finalistas deste ano.

– Eu ainda não estava preparada. Não esperava por isso. Não achei que eu ia ganhar – disse Laure, em evidente estado de choque, na cerimônia realizada na Irlanda do Norte. – Estou tão feliz. Vamos dançar e vamos levar o bebê (sua filha, nascida há poucos meses).

Penelope Curtis, que dirige a Tate Britain e o comitê avaliador do Turner, destacou que o trabalho de Laure foi “muito mais profundo do que eles imaginaram que seria” e disse que os jurados se surpreenderam com a “real riqueza da textura da obra dela, que foi feita tanto a mão quanto com a mais moderna tecnologia”.

Laure nasceu em Lille, estudou cinema na universidade Goldsmiths and Central Saint Martins e agradou o júri com a instalação “Wantee”. Segundo o jornal “The Guardian”, trata-se de uma “outsider” que chamou a atenção por examinar a relação do ser humano com seu passado, usando a tecnologia do Instagram.

Laure installationInstalação de “Wantee” no TURNER PRIZE 2013 em Ebrington, Derry-Londonderry
Cortesia do artista e Tate Modern (Fotografia: Lucy Dawkins)

A instalação, que segue exposta na Tate Modern até 5 de janeiro, tem 30 minutos de duração e pode ser vista por até 20 pessoas ao mesmo tempo. Ela leva o indivíduo a uma espécie de cenário e narra uma história fictícia sobre seu avô. Por meio de vídeos, conta que ele teria tentado abrir um túnel para a África, no chão de sua sala de estar, e que jamais teria retornado para casa. Laure também adicionou à obra um filme que fala sobre sua avó (também fictícia) e seu desejo de dirigir uma moto.

“A forma como você se relaciona com o passado e com seus avós é real”, disse Curtis ao “The Guardian”.

“E é por isso que Laure toca as pessoas”.

A ideia por trás de “Wantee” é que muitas vezes achamos que conhecemos bem alguém mas, na verdade, isso não acontece.

Pela primeira vez desde 1984, quando o Turner foi lançado, o prêmio foi entregue na Irlanda do Norte. Laure recebeu o reconhecimento das mãos da atriz Saoirse Ronan.

Sobre o Prêmio Turner

Criado em 1984 para homenagear o pintor britânico JMW Turner, o prêmio é o mais importante das artes visuais no Reino Unido e um dos mais aguardados do ano em todo o mundo. Já laureou nomes como Damien Hirst e Tracy Emin.

 

Fonte: O Globo

Balada de Gisberta

Por Evandro Oliveira

gisberta2Gisberta

É com esta canção que Maria Bethânia fecha o primeiro ato de seu show “Amor Festa Devoção” (guardado em disco de mesmo nome, 2010). Transfigurada em Gisberta (a sem nome, sem sexo: só paixão e queda) a cantora imprime o tom mais que perfeito para marcar a saída de cena: quando perigo e encanto; alerta e convite nos envolvem.

Mas quem é essa Gisberta, fui pesquisar:

Gilberto Salce Júnior, ou melhor, a transsexual brasileira Gisberta foi assassinada na cidade do Porto, em Portugal, em fevereiro de 2006. Antes, durante dois dias, sofreu todo tipo de violência verbal e física, mantida sob cárcere, por um grupo de adolescentes (entre 12 e 16 anos de idade).

A “Balada de Gisberta”, de Pedro Abrunhosa, restitui à personagem sua condição humana, destroçada; leva-nos, com tais informações extras, a pensar sobre as políticas públicas de segurança e respeito mútuo e o preconceito com os diferentes.

“Perdi-me do nome, hoje podes chamar-me de tua”, diz a Gisberta que fala na canção. Ela é uma legião: carrega na voz a multidão de marginalizados, que servem apenas para dançar em palácios, oferecer-se a mil homens, e logo depois ser descartados.

Urge responder à altura: dialogar e dizer a Gisberta que, acima dos fundamentalismos, ainda vale a pena e é possível sonhar e realizar dias melhores, sem juízos finais. Agora. Pois o céu da felicidade, de cada um e de todos, não pode esperar.

Balada de Gisberta
(Pedro Abrunhosa)

“Perdi-me do nome,
Hoje podes chamar-me de tua,
Dancei em palácios,
Hoje danço na rua.
Vesti-me de sonhos,
Hoje visto as bermas da estrada,
De que serve voltar
Quando se volta p’ró nada.

Eu não sei se um anjo me chama,
Eu não sei dos mil homens na cama
E o céu não pode esperar.
Eu não sei se a noite me leva,
Eu não ouço o meu grito na treva,
E o fim vem-me buscar.

Sambei na avenida,
No escuro fui porta-estandarte,
Apagaram-se as luzes,
É o futuro que parte.
Escrevi o desejo,
Corações que já esqueci,
Com sedas matei
E com ferros morri.

Trouxe pouco,
Levo menos,
E a distância até ao fundo é tão pequena,
No fundo, é tão pequena,
A queda.
E o amor é tão longe,
O amor é tão longe
E a dor é tão perto.”

 

 Fonte: Sabor da Letra

Quadrinho e quadrinhos

Por Erico Assis

0779_FIQ2013_© Glenio CampregherFiQ 2013 – Belo Horizonte (Foto: Glenio Campregher)

Laerte foi o homenageado-mor do 8º FiQ – o Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, que terminou no dia 17. Foi exatamente neste último dia que ele tinha hora marcada para conversar com o público, respondendo perguntas de uma mesa polivalente (quadrinista, jornalista, ativista, filho) e da plateia. Como é próprio do Laerte, conseguiu resumir em meia dúzia de palavrinhas uma confusão que estava há dias na minha cabeça.

Numa das primeiras perguntas da plateia, Laerte foi questionado quanto ao que pensava do panorama dos quadrinhos no Brasil. Parafraseio a resposta: só o Festival ali em volta era prova de que não existe mais só o quadrinho brasileiro, mas os quadrinhos brasileiros.

Laerte estava falando da variedade de gêneros, de formatos, de estilos, de públicos, de temas, de variação que se vê na produção atual. Se nos anos 70, quando ele começou, havia poucas opções fora dos gêneros de massa, o que se vê hoje é a consequência do movimento que buscou mostrar as HQs como opções de leitura que podem abarcar o infantil, o adulto, o super-herói, a biografia, a filosofia, a arte experimental, a simplicidade estilizada, o underground, o cômico, o ensaístico e virtualmente tudo que se queira fazer com imagens e palavras.

A confusão vigorava na minha cabeça porque, como sempre, o Festival começou com discussões sobre o mercado de quadrinhos no Brasil, tanto nos debates marcados quanto nas rodas de colegas. Falava-se em canais de acesso: o número de bancas em queda, as livrarias estagnadas, o digital incipiente. Falava-se nas editoras sem ousadia: desconhecimento da mídia, foco em programas do governo, erros grosseiros de logística. Falava-se dos independentes: crowdfunding, capricho, ousadia e inovação, mas com alcance restrito de público. Não se falava de números, pois todo mundo esconde os seus. Falava-se que ainda é preciso alcançar novos leitores.

homenageado_3.76026b392a09Laerte Coutinho, homenageado na FiQ 2013

Ninguém fora o Laerte, porém, lembrou que o quadrinho são quadrinhos. Ninguém falava de conteúdo. Ninguém falava das diferentes temáticas, dos diferentes estilos de texto, diferentes estilos de desenho, diferentes personagens.

O leitor recém-chegado aos quadrinhos – ou melhor, a um quadrinho – costuma chegar porque este quadrinho tem o mesmo Homem-Aranha que ele viu no filme. Ou porque trata da Segunda Guerra Mundial. Ou porque fecha com suas tendências políticas. Ou porque as aquarelas enchem seus olhos. Porque tem relação com mitologia greco-romana. Porque ele achou a capa animal. Porque é a autobiografia de um adolescente reprimido. Porque é uma história com o roqueiro preferido. Porque aquele cara é engraçado. Porque tem ninjas/zumbis/vikings/dachshunds/bukkake/aviões.

O caso é que o ponto de acesso mais comum do novo leitor não é o fato do quadrinho ser quadrinho, mas sim por ser uma leitura atraente. Se o novo leitor gostar deste ponto de acesso, posteriormente pode acompanhar nomes de autores, catálogos editoriais, outras opções do gênero, quem sabe até os quadrinhos em um nível macro.

Para os já iniciados e a meia dúzia de apóstolos (como eu) que gosta de quadrinho só por ser quadrinho, é fácil esquecer essa ideia aparentemente óbvia. O discurso que se passa ao público em formação é de que os quadrinhos são um mundo à parte, uma linguagem alheia aos gêneros, interesses e gostos, que só pode ser adentrada se você gostar de todos os quadrinhos.

Laerte_homenagemAinda naquela mesa com Laerte no FiQ, uma menina levantou-se e declarou que era recém-chegada aos quadrinhos. Havia chegado ao/à Laerte devido, nas palavras dela, às “discussões de gênero” que o autor embandeira – e estava contente com o mundo variado ainda em exploração.

E no dia em que eu estava escrevendo este texto, recebi o e-mail de um ex-aluno perguntando “por onde eu começo a ler quadrinhos?”. Se eu escrevesse sobre música, ele ia perguntar “por onde eu começo a ouvir música?”?


 

 Fonte: Blog da Companhia

‘Decameron’ ganha versão ilustrada de Alex Cerveny nos 700 anos do autor

Ilustração do livro ‘Decameron’ (Imagem: Reprodução)

Nos 700 anos do nascimento de Boccaccio, sua obra mais popular, Decameron, ganha duas traduções no Brasil. A primeira, publicada pela Cosac Naify, tem ilustrações delicadas do artista paulistano Alex Cerveny, que também desenhou os ornamentos das dez novelas selecionadas pelo tradutor Maurício Santana Dias, entre as 100 narrativas do Decameron. A segunda, publicada pela L&PM, é uma edição sem ilustrações com nova tradução de Ivone C. Benedetti, especialista na obra de Boccaccio. É a versão integral desse clássico absoluto, escrito entre 1349 e 1351 (ou 53), quando a peste negra devastou a Europa. É também uma tradução feita para fazer rir o leitor brasileiro, segundo a tradutora, da mesma forma como Boccaccio divertiu os leitores florentinos no século 14, compensando-os pela perda de parentes e amigos levados pela epidemia.

Foi exatamente com esse objetivo em mente que Boccaccio reuniu 100 narrativas que exorcizam a peste negra, estabelecendo com sua coleção de histórias – algumas picantes, outras nem tanto – o marco zero da prosa ficcional realista no Ocidente. Como bônus, ele abriu caminho para a liberdade dos renascentistas. O amor espiritualizado da Baixa Idade Média baixava à terra para assumir uma dimensão mais humanista no século 14, quando a comunicação oral, até então predominante, começa a perder terreno para a escrita. Grande parte dessa centena de narrativas veio do meio do povo para o deleite da burguesia mercantil. A perenidade de Decameron, como escreveu a tradutora Ivone C. Benedetti, resultou da “perfeita comunhão entre o escritor e seu público”.

São vários os exemplos de apropriação das narrativas populares, de jovens que se hospedam na casa de um homem e abusam da sua filha à história de Masetto, que se finge de mudo, entra como jardineiro de um convento e vira amante de todas as freiras. Essas histórias são contadas por dez jovens (sete moças de origem nobre e três rapazes) que buscam abrigo nas montanhas, fugindo das cidades dizimadas pela peste. A narrativa de Bocaccio não omite o flagelo. Ao contrário. Ao lado de cenas picarescas como as descritas anteriormente convive o fantasma da praga, da morte, do temor religioso. Ele reconta essas histórias usando a linguagem de seu tempo.

Ilustração do livro ‘Decameron’ (Imagem: Reprodução)

Por fidelidade a ela, Alex Cerveny foi buscar inspiração nos manuscritos que se encontram na Biblioteca Nacional de Paris e na Biblioteca do Estado em Berlim. As duas edições foram usadas como referências para ilustrar a edição parcial do Decameron. A encomenda da Cosac Naify previa intervenções gráficas em todas as páginas. A influência do traço de Boccaccio, que ilustrou a própria obra, é notável em cada uma delas, mas Cerveny avança no tempo e emula também o estilo dos artistas do Renascimento, principalmente Piero della Francesca. Seu retrato do duque de Urbino serve de modelo para o artista brasileiro criar um dos personagens da primeira novela da primeira jornada, que conta como Cepparello engana um padre e é tomado por santo quando morre.

Outras fontes visuais incluem o filme que Pier Paolo Pasolini fez baseado no clássico. O jardineiro Masetto, flagrado pelas freiras em plena ação onanista, é um exemplo. Outro é o trio formado por Peronella, seu amante e o marido. Ela esconde o primeiro num tonel, mente para o marido que o vendeu e o faz entrar dentro dele para examinar seu estado, enquanto o amante se livra das calças e avança sobre ela. Predomina no desenho o mesmo erotismo campesino do filme de Pasolini, que abjurou sua recriação de Boccaccio ao ver a obra consumida pelo público como pornografia.

Nenhuma das 44 ilustrações de Cerveny corre o risco de ser classificada da mesma forma. Elas conservam a inocência das ilustrações dos livros infantis feitas pelo artista, que completa 50 anos de idade e 30 de carreira com uma exposição de pinturas e desenhos na Casa Triângulo leia abaixo). O exemplo máximo desse segmento literário dedicado às crianças é o conjunto de ilustrações produzidas para Pinóquio, o clássico de Collodi, também publicado pela Cosac Naify.

Ao contrário dos desenhos de Pinóquio, monocromáticos, os de Decameron são multicoloridos. Para o primeiro, Cerveny pesquisou uma técnica da gravura usada no século 19, o cliché verre (clichê em vidro), em que o artista chamusca uma placa de vidro com uma vela e desenha sobre a superfície, como se fosse um negativo fotográfico. Em Decameron, ele dispensou instrumentos e confiou na técnica pessoal. Fez bem.

 

 Fonte: Estadão.com.br